Archive for the ‘Traduções’ Category

O esforço (tradução)

Friday, April 6th, 2012

A vida é uma arma. Onde ferir, sobre qual obstáculo tensionar nossos músculos, em que cume pendurar nossos desejos? Será melhor gastar-nos de um golpe e morrer a morte ardente da bala esmagada contra o muro ou envelhecer no caminho sem fim e sobreviver à esperança? As forças que o destino esqueceu um instante em nossas mãos são forças de tempestade. Para aquele que tem os olhos abertos e o ouvido em guarda, para aquele que se incorporou uma vez sobre a carne, a realidade é angústia. Gemidos de agonia e clamores de triunfo nos chamam na noite. Nossas paixões, como uma matilha impaciente, farejam o perigo e a glória. Nos adivinhamos donos do impossível e nosso espírito ávido se desgarra.

Fincar pé na praia virgem, agitar o maravilhoso que dorme, sentir o sopro do desconhecido, o estremecimento de uma forma nova: eis o necessário. Mais vale o horrível que o velho. Mais vale deformar que repetir. Antes destruir que copiar. Que venham os monstros, se são jovens. O mal é o que vamos deixando às nossas costas. A beleza é o mistério que nasce. E esse feito sublime, o advento do que jamais existiu, deve verificar-se nas profundezas do nosso ser. Deuses de um minuto: que nos importa os martírios da jornada, que importa o desenlace negro se podemos dizer à natureza: – Não me criaste em vão!

É preciso que o homem se olhe e diga: – Sou uma ferramenta. Tragamos à alma o sentimento familiar do trabalho silencioso e admiremos nela a beleza do mundo. Somos um meio, sim, mas o fim é grande. Somos chispas fugidias de uma prodigiosa fogueira. A majestade do Universo brilha sobre nós e transforma em sagrado nosso esforço humilde. Por pouco que sejamos, o seremos completamente se nos entregarmos por inteiro. Saímos das sombras para abrasarmos na chama; aparecemos para distribuir nossa substância e enobrecer as coisas, nossa missão é semear os pedaços de nosso corpo e de nossa inteligência; abrir nossas entranhas para que nosso gênio e nosso sangue circulem pela terra. Existimos enquanto nos damos; negar é desvanecer ignominiosamente. Somos uma promessa, o veículo de intenções insondáveis. Vivemos por nossos frutos e o único crime é a esterilidade.

Nosso esforço se enlaça com inumeráveis esforços do espaço e do tempo e se identifica com o esforço universal. Nosso grito ressoa por âmbitos sem limite. Ao mover-nos, fazemos tremer os astros. Nem um átomo, nem uma ideia se perde na eternidade. Somos irmãos das pedras de nossa palhoça, das árvores sensíveis e dos insetos velozes. Somos irmãos até dos imbecis e dos criminosos, ensaios sem êxito, filhos fracassados de mãe comum. Somos irmãos até mesmo da fatalidade que nos esmaga. Ao lutar e ao vencer, colaboramos com essa obra enorme e também colaboramos ao ser vencidos. A dor e o aniquilamento também são úteis. Sob a guerra interminável e feroz canta uma imensa harmonia. Lentamente se prolongam nossos nervos, unindo-nos ao desconhecido. Lentamente nossa razão estende suas leis a regiões remotas. Lentamente a ciência integra os fenômenos numa unidade superior, cuja intuição é essencialmente religiosa, porque não é a religião que a ciência destrói, mas as religiões. Pensamentos estranhos cruzam as mentes. Sobre a humanidade floresce um sonho confuso e grandioso. O horizonte está carregado de trevas e em nosso coração sorri a aurora.

Não entendemos ainda. Apenas nos é concedido amar. Empurrados por vontades supremas que em nós se levantam, caímos no enigma sem fundo. Escutamos a voz sem palavras que sobe em nossa consciência e, tateando, trabalhamos e combatemos. Nosso heroísmo consiste de nossa ignorância. Estamos em marcha, não sabemos para onde e não queremos nos deter. O trágico alento do irreparável acaricia o suor em nossa face.

Rafael Barret. El esfuerzo. In: Moralidades actuales. Montevideo: O. M. Bertani, 1910.

Criancices (tradução)

Friday, April 6th, 2012

Mais uma crônica de Barrett sobre o filho.

Meu filho tem mais de três anos. É um menino excepcional. Todos os meninos desta idade são excepcionais. Passa pelo ápice da curva delineada pelo homem. Atravessam uma época breve na qual a soma das prosperidades da carne e do espírito é maior. Flor da florida infância! Momento sagrado! O corpo, ainda rico de linhas redondas e suaves que lembram o seio que o nutriu e a amabilidade do leite, começou a estirar-se, ressequido pela brincadeira. O músculo brota. As panturrilhas bronzeadas endurecem. O peito, quando a agitação da corrida faz respirar angustiado, desenha o sólido círculo de sua caixa oculta. O pescoço adquire orgulho de pedestal, a cabeça começa a sentir-se cume e se eleva naturalmente ao céu. Os pés se tornaram ágeis e astutos. As mãos não são mais rolinhos de inválida manteiga. Sabem acariciar e quebrar e cada dedo aprende seu ofício. A pele perdeu seu rosado excessivo e um pouco vulgar dos que ainda amamentam. Uma palidez sublime, mensageira do coração, põe sua luz nas têmporas delicadas. O cabelo morno se enrola em cachinhos rebeldes. A boca, delícia úmida e vermelha onde riem, até no choro, os dentezinhos completos, é a vertigem do beijo. Os olhos transbordam inocência e também desejos inumeráveis: olhos em que cabem agora as perspectivas dos bosques e das planícies: olhos bastante profundos para retratar os mares e as estrelas, olhos em que repousará, enquanto viva, a imagem do infinito. Esses olhos claros, seus olhos… o quê? Se fecharão, me diz que fecharão?

E meu filho canta, grita, corre, turbilhão de júbilo, pequena avalanche de felicidade. Já calcularam os sábios a energia que gasta um menino da manhã à noite? Como explicam que, gastando tanta energia, cresça e se torne forte com tamanha intensidade e rapidez? Em qual aritmética estará a solução? E, além do mais, meu filho é valente! – é capaz de se aproximar de todos os precipícios, como se tivesse preservado suas asas de anjo… o quê? Cairá por fim, me diz que cairá?

Ah, nossos passeios filosóficos! Numa poça do jardim se afoga uma vespa. Nos compadecemos dela. Organizamos o salvamento. Secamos a pobre com um pauzinho. Ele queria secá-la sem apetrecho algum.

– Por que o pauzinho? – me pergunta

– Porque há vespas que picam, ai!, até quando as socorremos…

Às vezes nos arriscamos sobre o longo caminho, o caminho que nunca acaba. Fico cansado muito antes dele. E falamos. E passamos por pessoas e por animais, por uma vaca…

– Papai, essa vaca que está vindo, quem é?

– Não sei, meu filho.

Quase sempre tenho que responder a mesma coisa: “Não sei” O quê? Me diz que ele também não saberá, que partirá sem saber nada?…

Uma caravana de formigas atravessa nosso caminho. É preciso respeitá-las. Meu filho, acostumado que as galinhas e os cachorros pequenos fujam dele, contempla as formigas silenciosamente e depois me interroga:

– Papai, porque elas não se assustam comigo?

– Porque não te vêm, meu filho. Você é grande demais…

Está rindo? O que teria respondido? Daqueles lábios saem enigmas terríveis. Salomão conseguiu satisfazer a rainha de Sabá. Duvido que meu filho partisse satisfeito. Não há rainha que tenha a imaginação de um menino de três anos! Poetas orgulhosos da própria imaginação: conseguiriam jogar três horas com pedrinhas e cascas de nozes? Poderiam, como meu filho, infundir uma alma brilhante ao mais inerte, escuro, mutilado, morto, a um amontoado de terra, a um pedaço de pano? Se a imaginação chegasse a vos representar a alma alheia, a dor alheia, homens cultos, tratariam uns aos outros como máquinas?

Para meu filho não há máquinas até hoje em todo o universo. Tudo respira, tudo é instinto e vontade. Tudo convida ou ameaça. Tudo é digno de amor ou de ódio. Assim deve ter sido a aurora do mundo… O que? Morrerá? Me diz que meu filho morrerá?…

Publicado em La Razón em 29 de julho de 1910.

Meu filho (tradução)

Monday, February 27th, 2012

Nasceu há algumas horas; é um dos seres mais jovens do universo. É o mais bonito: seu narizinho mal se vê. É o mais forte: trememos em sua presença e apenas nos atrevemos a tocá-lo. Nasceu e chorou: lição admirável, fenômeno extraordinário! Bocejou depois: inteligência profunda!

Mama, reunindo todas suas energias. Soube expressar em um só gesto os gestos dispersos da humanidade. Desde que veio ao mundo, o mundo é outro. Um sopro de primavera refresca as coisas, reanima as flores murchas e renova o céu. Ele saiu para a vida e explicou a vida. Abriu os olhos e criou a luz.

Agora, compreendo aquilo que tanto resistiu aos esforços dos filósofos. Descobri que os homens são bons, que os crimes mais infames não passam de aparência. Apenas o bem existe. A realidade é boa; a realidade é feliz. O mal e o desespero não passam de impaciência. Tudo caminha: tudo se arrumará. Meu filho, promessa infinita, dorme; ele salvará os desgraçados. É o menino-Deus: os Reis Magos contemplam seu sono sagrado.

Uma probabilidade virgem chegou à terra. Não sou eu quem a traiu; não somos nós quem a traiu. Não existo, não existimos desde que ele nasceu. Nasceu e já não é nosso filho, mas filhos seus somos nós; seus discípulos e servidores. Nosso pai, nosso mestre. Desceu para nos dizer o que ignoramos, o que escutaremos religiosamente.

Tomo minha pluma para anunciar a boa nova, para fazer o elogio do meu filho. Podem rir, não os escuto. Estou deslumbrado pelo Messias e não percebo sua indiferença.

Indiferença? Ah, não! Que nos resta, que resta do destino se não vivem nossos filhos, se não são deuses em nosso coração e em nossa mente? Eles são tudo, toda beleza, toda verdade, toda esperança. Por isso, tenho certeza que celebram comigo o nascimento de nosso filho, de nosso querido filho que dorme.

Rafael Barrett, 1910 [1907]

Traduzido de: Mi hijo In: Moralidades actuales. Montevideo: O. M. Bertani, 1910.

Rafael Barrettt (1876-1910) é um dos grandes nomes da literatura hispano-americana do início do século XX que têm pouca difusão no Brasil. Considerado por Roa Bastos o pai da literatura paraguaia, esse espanhol auto-exilado, traiu a sua classe, aderiu ao anarquismo e produziu uma pequena, mas sólida obra de crônica social que relata com grande sensibilidade a realidade da Argentina e principalmente do Paraguai do final do século XIX e início do século XX. Não tenho ciência de nenhuma tradução da sua obra para a língua portuguesa. Espero, com essa pequena crônica, dar início à tradução de uma pequena parte da obra Barrett. A obra está em domínio público e a tradução é livre, conforme a licença do blog.