O controle das mídias sociais como instrumento da política externa americana (II)

Parte II: Estadismo do século XXI

A campanha eleitoral de Obama havia sido marcada pelo forte uso das redes sociais e essa disposição pró-tecnologia foi levada para dentro do governo com inclusão de Alec Ross (que havia coordenado o plano de tecnologia e inovação da campanha) como assessor sênior de Hillary Clinton. Nas palavras de Ross, “Hillary é quem nos libertou. Ela é a madrinha do estadismo do século XXI.” (Lichtenstein, 2010). “Estadismo do século XXI” foi o nome dado por Clinton para a inclusão de estratégias baseadas nas novas tecnologias num sentido que ia muito além da diplomacia pública 2.0 do governo anterior.

Logo no começo de 2010, Cohen e Ross promoveram um encontro entre a secretária e diversos executivos da área de tecnologia de informação, entre eles o diretor da Google, Eric Schmidt, Jason Liebman da Howcast (que havia co-patrocinado o encontro de 2008) e Jack Dorsey do Twitter (Lichtenstein, 2010). Duas semanas depois, a secretária proferiu seu famoso discurso sobre a liberdade da Internet (Clinton, 2010). O encontro e o discurso que o sucedeu marcam o delineamento da nova estratégia americana de fusão de novas tecnologias e política externa e a adesão de empresas de tecnologia a essa estratégia.

O discurso de Hillary foi marcado por um incidente que acontecera uma semana antes, quando os servidores do Gmail (da Google) foram invadidos na tentativa de obter informação de ativistas de direitos humanos chineses. A suspeita recaiu sobre o governo do país. A tentativa de invasão levou a Google a descontinuar seu serviço de busca na China, pondo fim a uma política de autocensura que remontava a 2006. A empresa anunciou da seguinte maneira a decisão, em seu blog oficial:

Lançamos a Google.cn em janeiro na crença de que os benefícios do maior acesso à informação para as pessoas na China e uma Internet mais aberta prevaleciam sobre nosso desconforto em concordar censurar alguns resultados. […] Estes ataques e a vigilância que demonstraram – combinados com as tentativas no último ano de restringir ainda mais a liberdade de expressão na web – levou-nos à conclusão de que deveríamos rever a viabilidade de nossas operações comerciais na China. Decidimos que não estamos mais dispostos a censurar nossos resultados na Google.cn e, assim, nas próximas semana, vamos discutir com o governo chinês as bases nas quais poderemos operar uma ferramenta de busca sem filtros, atuando dentro da lei, se possível. Reconhecemos que isso pode significar fechar a Google.cn e, em última instância, nossos escritórios na China. (Drummond, 2010)

A decisão marcou uma reviravolta na política da empresa que sinalizou a crescente politização de suas atividades empresariais. Desde o começo das suas operações em território chinês, a Google praticava autocensura nos resultados de busca na tentativa de evitar que o site inteiro fosse censurado, como havia acontecido em 2002 (quando servia o mercado chinês “de fora”). Essa autocensura foi vista por organizações de direitos humanos como colaboração com o regime chinês e a Google foi alvo de intensas críticas de organizações de direitos humanos (por exemplo, Human Rights Watch, 2006). Mas enquanto a pressão das ONGs foi ineficaz, a adoção de estratégias conjuntas com o Departamento de Estado fez com que a Google rapidamente mudasse de atitude. E o respaldo do governo americano veio por meio do discurso de Hillary uma semana e meia depois:

As empresas americanas estão levando em consideração cada vez mais a questão da Internet e da liberdade de informação nas suas decisões comerciais. Espero que seus competidores e governos estrangeiros prestem atenção nesta tendência. A situação mais recente envolvendo a Google chamou bastante a atenção. E esperamos que as autoridades chinesas façam uma investigação meticulosa das invasões cibernéticas que levaram a Google a fazer este anúncio. Também esperamos que a investigação e seus resultados sejam transparentes. (Clinton, 2010)

Apesar da menção ao fato, a tônica do discurso não recaiu no caso da semana anterior, mas nas potencialidades mais amplas da liberdade de informação da internet como promotora dos valores e ideais democráticos americanos. Não se tratava de simplesmente defender esses valores em si, ou mesmo nos fóruns multilaterais, mas de efetivar medidas práticas que teriam efeitos sobre regimes autoritários (inimigos):

Os Estados Unidos estão comprometidos em oferecer os recursos diplomáticos, econômicos e tecnológicos necessários para promover essas liberdades […] Para fazer isso, precisamos desenvolver nossa capacidade para o que chamamos no Departamento de Estado de estadismo do século XXI. […] [Por isso] estou orgulhosa com o fato de o Departamento de Estado estar trabalhando em mais de 40 países para ajudar indivíduos que foram silenciados por governos opressivos. […] Estamos também apoiando o desenvolvimento de novas ferramentas que permitirão aos cidadãos exercitar seus direitos de liberdade de expressão contornando a censura politicamente motivada. Estamos oferendo recursos para grupos em todo o mundo para garantir que essas ferramentas cheguem às pessoas que precisam delas nas suas línguas e com o treinamento que precisam para acessar a internet com segurança. Os Estados Unidos têm auxiliado esses esforços por algum tempo, com ênfase na implementação destes programas da maneira mais eficiente e mais eficaz possível. Tanto o povo americano como as nações que censuram a internet devem entender que nosso governo está comprometido em ajudar a promover a liberdade da internet. É por isso que estou anunciando hoje, que no próximo ano, vamos trabalhar com parceiros na indústria, universidade e organizações não-governamentais para estabelecer um esforço duradouro que vai se aproveitar do poder das tecnologias de conexão e aplicá-las para nossos objetivos diplomáticos. (Clinton, 2010)

Essas novas diretrizes iam muito além daquelas da diplomacia pública 2.0 de Glassman. Elas não buscavam apenas criar trajetórias desviantes e aumentar as vozes pró-americanas na internet – elas buscavam armar dissidentes de países inimigos com tecnologias de informação e comunicação para que mais eficazmente se comunicassem e promovessem os ideais democráticos pró-americanos. Além disso, o discurso – e a ação da Google na semana anterior – sinalizavam uma aliança explícita com as empresas de tecnologia da informação que passavam então a agir colaborando na implementação das estratégias diplomáticas do Departamento de Estado.

Essa nova parceria empresa-Estado foi diretamente tematizada num artigo na Foreign Affairs co-assinado pelo presidente da Google, Eric Schmidt e o assessor da secretária Hillary Clinton, Jared Cohen no final do ano. Nele, os produtos das empresas de tecnologia de informação são considerados produtos “políticos” que equivalem às “armas” da era da informação e enquanto os governos muitas vezes podem apenas “advertir”, as empresas podem efetivamente “fazer”:

Empresas cujos produtos ou serviços giram em torno da tecnologia da informação – sejam produtores de celulares, fabricantes de roteadores utilizados em firewalls ou provedores de plataformas de Internet – lidam com uma mercadoria que é inerentemente política. No mundo interativo da Web 2.0 o objetivo principal de algumas das empresas que mais crescem no setor de tecnologia é prover conexões que atravessam fronteiras. Não surpreende que os funcionários da velha guarda que dominam os regimes repressivos vejam essas companhias como pouco mais do que traficantes de armas da era da informação. Isso posto, embora os Estados Unidos e outros países possam advertir funcionários chineses de que têm de obedecer tratados internacionais de direitos humanos, as empresas podem efetivamente agir – publicizando as maneiras como governos em todo o mundo censuram conteúdo ou simplesmente desligam os seus cidadãos do mundo. (Schmidt; Cohen, 2010)

Esse movimento pelo qual a Google e outras empresas e fundações privadas passaram a efetivamente implementar as diretrizes da política externa americana pode ser mais claramente visto na realização, ainda em 2010, do evento Internet at Liberty, organizado pela Google em Budapeste, no leste europeu, tradicional foco das políticas de promoção da democracia desde os anos 1990.

O encontro reuniu vários tradicionais participantes dos encontros da Aliança dos Movimentos da Juventude [1] e foi vista por eles como uma continuação natural das iniciativas que tiveram início no governo George Bush. Tanto o encontro de 2010, como o seguinte, em Washington, DC, em 2012, foram caracterizados pela mistura de atores que incluía executivos de empresas de tecnologia, funcionários do governo americano e ativistas dissidentes de governos inimigos dos Estados Unidos. Os eventos tiveram uma programação que misturava debates conceituais gerais sobre a liberdade na internet com treinamentos práticos sobre o uso de criptografia, celulares e redes sociais para a mobilização social não-violenta [2].

O fato de que uma empresa de tecnologia assumia para si uma missão que o Departamento de Estado originalmente designara a ativistas da sociedade civil mostrava de que maneira essa nova estratégia da política externa havia fundido os interesses dos setores público e privado americanos.

[Continua…]

Notas:

[1] Depois do encontro de 2008, a Aliança dos Movimentos da Juventude continuou com encontros anuais até 2010, reunindo-se na cidade do México em 2009 e em Londres em 2010.

[2] A programação do evento pode ser vista em: https://sites.google.com/a/pressatgoogle.com/internet-at-liberty-2010/ (para o encontro de 2010) e em: http://www.google.com/events/internetatliberty2012/index.html (para o ano de 2012)

Referências bibliográficas:

Clinton, H. R. Remarks on Internet freedom. Remark by secretary of state Hillary Clinton. 21 de janeiro de 2010.

Clinton, H. R. Internet’s rights and wrongs: choices and challenges in a networked world. Remark by secretary of state Hillary Clinton. 15 de fevereiro de 2011.

Drummond, D. A new approach to China. Google official blog. 12 de janeiro de 2010. Disponível em: http://googleblog.blogspot.com.br/2010/01/new-approach-to-china.html

Human Rights Watch. “Race to the bottom”: corporate complicity in Chinese Internet censorship. Human Rights Watch. v. 8, n. 8, agosto de 2006.

Lichtenstein, J. Digital diplomacy. New York Times Magazine. 16 de julho de 2010.

Schmidt, E.; Cohen, J. The digital disruption: connectivity and the diffusion of power. Foreign Affairs. v. 89, n. 6, novembro-dezembro de 2010. p. 75-85.

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