O controle das mídias sociais como instrumento da política externa americana (I)

Parte I: Diplomacia 2.0

Empresas cujos produtos ou serviços giram em torno da tecnologia da informação […] tratam de uma mercadoria que é inerentemente política.
Eric Schmidt, presidente da Google e Jared Cohen, funcionário do Departamento de Estado americano

A ideia de que o controle das empresas de mídia social era um ativo a ser explorado pela diplomacia americana nasceu tardiamente, no final do segundo mandato do governo George W. Bush. O responsável por implementar essa política foi James Glassman, subsecretário para Diplomacia Pública que desenvolveu o conceito sob a influência do jovem assessor Jared Cohen (hoje empregado da Google) especializado em “contra-radicalismo” e juventude no Oriente Médio (Lichtenstein, 2007 e 2010).

Tradicionalmente, a diplomacia pública se ocupa dos meios para influenciar públicos estrangeiros a aderirem a interesses nacionais e opera por meio de rádios e TVs internacionais, além de programas de intercâmbio e difusão cultural que promovem os valores e os interesses nacionais no estrangeiro. A ideia de uma diplomacia pública 2.0 consistia em introduzir as novas tecnologias da Internet nestas estratégias.

Na sua audiência de confirmação para o cargo perante o comitê de relações exteriores do Senado, em janeiro de 2008, Glassman enfatizou o papel das novas tecnologias como uma das três linhas mestras de seu plano de trabalho (Glassman, 2008a). Essa convergência entre diplomacia pública e novas tecnologias em parte se explicava pelo percurso de Glassman que vinha de uma experiência como diretor do Conselho Gestor de Radiodifusão (o Broadcasting Board of Governors, órgão civil que dirige as iniciativas de radiodifusão da diplomacia pública americana, como a Voz da América e a Radio Europa Livre), além de editor de um jornal eletrônico conservador, o Tech Central Station.

Além da ideia de introduzir as novas tecnologias na diplomacia pública, Glassman também foi responsável por introduzir o conceito de “desvio das trajetórias de radicalização” que apresentou num artigo no Wall Street Journal cinco meses após tomar posse. Este conceito mudava a orientação da diplomacia pública que, ao invés de tentar persuadir o público estrangeiro de adotar uma visão americana completa, se contentava em desviá-lo de trajetórias indesejáveis de radicalização:

O que vislumbramos é um mundo plural com muitas escolhas pacíficas e produtivas sobre como ordenar a própria vida. O objetivo não é persuadir recrutas potenciais a se tornarem americanos ou europeus, mas desviá-los do caminho de se tornarem terroristas. Fazemos isso ajudando-os a construir redes (virtuais e físicas) e contramovimentos – não apenas políticos, mas culturais, sociais, atléticos e de outros tipos. […] Ainda que conquistar os corações e mentes fosse um feito admirável, a guerra de ideias precisa adotar o objetivo imediato e realista de desviar segmentos impressionáveis da população de serem recrutados pelo extremismo violento. (Glassman, 2008b)

Cohen desenvolveu o conceito de Glassman num artigo para a Foreign Affairs no ano seguinte. Nele, argumentou que o efeito de desvio que a oferta de diferentes percursos individuais poderia ter para desprestigiar as trajetórias de radicalização seria demonstrado pela própria experiência americana, que é uma sociedade que convive com o radicalismo e terrorismo doméstico sem que ele tenha base social significativa. Isso parecia implicar para Cohen (2009) que a diversidade característica das democracias ocidentais cria desvios sistemáticos que impedem que as trajetórias individuais convirjam em posições radicais – estratégia que poderia ser emulada para desviar trajetórias que levavam ao jihadismo nos países árabes.

Mas a motivação fundamental para a criação de uma nova diplomacia pública – 2.0, como a chamaria Glassman – nasceu da tentativa de superar a impressão que os cidadãos estrangeiros tinham dos Estados Unidos como uma nação que sistematicamente desrespeitava as posições alheias (Glassman, 2010). Os instrumentos usuais da diplomacia pública, como os sistemas de radiodifusão, apenas confirmavam a impressão, já que a estrutura dos meios de comunicação tradicionais era baseada numa fonte emissora central.

As novas tecnologias da Internet, ao contrário, eram descentralizadas, o que dava a elas uma aparência democrática. Assim, essas ferramentas poderiam simultaneamente contornar a fama de impositor intransigente dos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que defenderiam sua posição numa estratégia de soft power, já que i) tinham uma estrutura descentralizada e participativa que encarnava os “valores [democráticos] americanos”; ii) ofereciam múltiplas alternativas de trajetórias individuais, possibilitando diversas rotas de desvio dos percursos de radicalização; iii) eram operadas por empresas sediadas nos Estados Unidos; e, por isso, iv) as vozes presentes nelas poderiam ser apoiadas e estimuladas, de maneira “que nossa posição fosse ouvida, mesmo se atores do governo americano não fossem responsáveis [diretos] por essa posição” (Glassman, 2010).

Foi a partir do conhecimento das mobilizações anti-FARC na Colômbia que o subsecretário desenhou a nova estratégia em 2008. Após os sucessos das mobilizações civis contra as FARC que reuniram 12 milhões de pessoas em 2008, Cohen visitou a Colômbia e em seguida fez com que o subsecretário também o fizesse. O exemplo colombiano logo se transformou num paradigma. Num depoimento para o comitê de relações exteriores do Senado, depois de sair do governo, Glassman descreve da seguinte maneira o processo:

Talvez o melhor exemplo prático da Diplomacia Pública 2.0 seja a Aliança de Movimentos da Juventude (Alliance of Youth Movements). No outono de 2008, um jovem funcionário do Departamento de Estado chamado Jared Cohen sugeriu que eu viajasse até a Colômbia para ver o que o governo, com ajuda dos Estados Unidos, tinha feito para encorajar jovens lutadores a abandonar as FARC, o grupo terrorista (que começou nos anos 1960 como uma ala militar do Partido Comunista da Colômbia) que tinha matado e sequestrado inocentes. Haveria lá algum ensinamento para a desmobilização e reintegração de extremistas violentos no Oriente Médio? Também por sugestão de Cohen encontrei-me com líderes de um movimento civil espontâneo que utilizou o Facebook para trazer 12 milhões de pessoas para as ruas de cidades em todo o mundo no começo de 2008 para se opor às FARC. O movimento, “Um milhão de vozes contra as FARC”, teve efeitos muito reais, desmoralizando os guerrilheiros das FARC e fazendo com que se desmobilizassem. Como resultado desses esforços, o tamanho das FARC caiu pela metade e sua eficácia foi significativamente reduzida. O jovem e dinâmico fundador do grupo anti-FARC, Oscar Morales, trabalhou sem apoio – e mesmo sem o conhecimento – do governo colombiano. Morales, um jovem técnico de computadores, era apenas um cidadão descontente com o que os terroristas estavam fazendo no seu país. Isso era um modelo que queríamos replicar. Então, decidimos trazer Morales, junto com outros jovens representantes de organizações similares, anti-violência e pró-mudança social que usavam a Internet em países como o Egito, México e o Reino Unido, assim como representantes de empresas de tecnologia como Facebook, Google, Howcast e AT&T. O Departamento de Estado concedeu apenas uma pequena quantidade de dinheiro inicial. Éramos apenas anfitriões e facilitadores. Numa conferência em Nova Iorque, no final de 2008, os jovens decidiram criar sua própria rede – que é chamada agora de Aliança dos Movimentos da Juventude, com um site de relacionamentos sociais, inclusive um sobre como se encontrar e um diretor executivo profissional. Com o apoio da secretária [Hillary] Clinton, o grupo organizou uma conferência no México em outubro, em parte com o propósito de lutar contra o narco-terrorismo e fará outro encontro no próximo mês em Londres. (Glassman, 2010)

Logo após conhecer a experiência colombiana, o Departamento de Estado co-patrocinou com empresas americanas de tecnologia de informação e produtos juvenis (como MTV e Pepsi), um encontro de dissidentes que utilizavam plataformas digitais, buscando reunir as melhores práticas e os casos mais importantes de mobilização online. O encontro aconteceu na escola de direito da Universidade de Columbia em Nova Iorque, onde o antigo chefe de Cohen, Matthew Waxman, lecionava. A programação do encontro reunia pela primeira vez um conjunto heterogêneo de atores como ativistas do Darfur (Sudão), Turquia, México e Venezuela, executivos de empresas como Facebook, HowCast e MTV e funcionários graduados do Departamento de Estado americano. [1] É precisamente dos vínculos entre estes três tipos de atores (ativistas com interesses convergentes com os americanos, empresas de tecnologia da informação e o Departamento de Estado) que nasce a moderna estratégia de utilizar as plataformas digitais como instrumento da política externa americana.

No ano seguinte, a atenção do Departamento de Estado e dos meios de comunicação americanos voltou-se para a interface entre mobilização civil e as novas tecnologias e grande destaque foi dado para o uso de celulares e mídias sociais pelo movimento 6 de abril no Egito, [2] nos protestos contra as eleições parlamentares na Moldávia [3] e nas manifestações contra as eleições presidenciais no Irã [4].

A mudança de governo, com a vitória de Obama, não mudou essa orientação da política externa – pelo contrário, a nova secretária Hillary Clinton manteve Cohen na sua equipe e reforçou ainda mais esta linha de atuação do Departamento de Estado, deslocando o tema do âmbito da diplomacia pública para o da promoção da democracia.

Desde o governo Bush (senior), os programas de promoção da democracia haviam ganho novo fôlego na diplomacia americana com o colapso dos regimes comunistas da Europa oriental e a fragmentação da antiga União Soviética (Carothers, 2002). Esses programas buscavam fortalecer o modelo da democracia liberal por meio de um conjunto de ações que incluía o financiamento de organizações não governamentais, programas de monitoramento dos processos eleitorais e, mais tarde, o treinamento de ativistas não violentos pró-democracia. Nos anos 1990 e no início do século XXI, parte dessas ações convergiram para o apoio aos processos de mobilização civil juvenil em países do antigo bloco socialista como a Sérvia, a Georgia e a Ucrânia por meio de diferentes agências americanas (Kuzio, 2006). Foi no contexto do sucesso das mobilizações juvenis na Europa oriental que o revigoramento dos programas de promoção da democracia convergiu com a adoção de estratégias de controle das mídias sociais na política externa americana.

[Continua…]

Notas:

[1] A programação completa do encontro está disponível em: http://www.movements.org/pages/the-summit

[2] S. M. Shapiro. Revolution Facebook style. New York Times Magazine. 22 de janeiro de 2009.

[3] Twitter revolution: fearing uprising, Russia backs Moldova’s communists. Spiegel Online. 4 de outubro de 2009.

[4] O. Nasr. Tear gas and Twitter: Iranians take their protests online. CNN World. 14 de junho de 2009.

Referências bibliográficas:

Carothers, T. The end of the transition paradigm. Journal of Democracy. v. 13, n. 1, janeiro de 2002. p. 5-21.

Cohen, J. Diverting the radicalization track. Policy Review, n. 154, abril e maio de 2009.

Glassman, James K. Opening statement. Hearing on nomination as under secretary of state for public diplomacy and public affairs. Senate foreign relations committee. 30 de janeiro de 2008(a).

Glassman, James K. How to win the war of ideas. The Wall Street Journal. 24 de junho de 2008(b).

Glassman, James K. Testimony before the the senate foreign relations committee. 10 de março de 2010.

Kuzio, T. Civil society, youth, and societal mobilization in democratic revolutions. Communist and post-communist studies. v. 39, n. 3, 2006. p. 365-386.

Lichtenstein, J. Condi’s party starter. The New Yorker. 5 de novembro de 2007.

Lichtenstein, J. Digital diplomacy. New York Times Magazine. 16 de julho de 2010.

Schmidt, E.; Cohen, J. The digital disruption: connectivity and the diffusion of power. Foreign Affairs. v. 89, n. 6, novembro-dezembro de 2010. p. 75-85.

One Response to “O controle das mídias sociais como instrumento da política externa americana (I)”

  1. Pedro Paulo Palazzo Says:

    Em resumo, o governo americano está fazendo de modo high-tech o que os recrutadores da al-Qaeda fazem de modo low-tech.

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