Dez anos de Bicicletada: memórias da pré-história

Meu amigo Odir me chamou a atenção para o fato de que a bicicletada vai completar dez anos esta semana. Eu verifiquei nos arquivos do Centro de Mídia Independente e confirmei que, de fato, nosso primeiro “passeio” aconteceu no dia 29 de junho de 2002. Os arquivos da lista de discussão do coletivo também confirmam a informação.

A Bicicletada nasceu da ação conjunta de ativistas ligados ao movimento antiglobalização que se encontravam no saudoso ICAL – o Instituto de Cultura e Ação Libertária (veja aqui o manifesto de fundação). O ICAL foi um centro social que funcionou por cerca de dois anos ao lado do metrô Vila Madalena – fundado e animado por militantes anarquistas que atuaram na PUC nos anos 1980 (nos anos da rádio Xilik). Durante sua curta e intensa existência, o ICAL foi simultaneamente ocupado por esses militantes mais velhos e também por muitos jovens do movimento antiglobalização que frequentavam o espaço, transformando a livraria do instituto num ponto de encontro diário de ativistas.

Foi no contexto deste animado ambiente de reflexão política e ativismo radical que a ideia de promover uma massa crítica periódica no Brasil se estabeleceu. Ela foi puxada por um grupo de ativistas que incluía ciclistas mais experientes e alguns ciclistas iniciantes que jocosamente se autodenominavam “ciclistas sedentários”.

Naquele momento, não antevíamos um ativismo de bicicleta como uma prática separada, mais ou menos como temos hoje. O movimento antiglobalização estava num processo de ascensão e era caracterizado pela confluência de uma prática militante (de ascendência anarquista) com outra mais contracultural (o conceito de autonomismo não estava ainda estabelecido). Naquele momento nos parecia que diferentes dimensões ativistas deveriam ser integradas e todas elas faziam parte do “movimento”.

Era neste espírito que, no mesmo espaço do ICAL e mais ou menos com as mesmas pessoas, se reunia o Centro de Mídia Independente (que produzia comunicação alternativa), o grupo Ciclistas Radicais (que promovia a bicicletada), o Batukação (grupo de percussão) e o grupo de estudos de Esperanto (que tentamos retomar como língua “neutra” para facilitar a comunicação do “movimento global”) – além, é claro, do próprio coletivo do ICAL. O nome do coletivo de bicicleta, “Ciclistas Radicais”, buscava indicar essa ligação entre o uso da bicicleta e a política radical. Depois, terminamos mudando o nome para Bicicletada porque os ciclistas mais experientes associavam o “radical” não com “política radical”, mas com “esporte radical”.

Durante os dois primeiros anos, a Bicicletada se reunia todos os sábados na esquina da Paulista com a Consolação, que elegemos como local de encontro porque ir de lá para qualquer outro lugar era descida – o que facilitava para os ciclistas sedentários. Anos depois o encontro foi transferido para a sexta-feira.

Neste primeiro período, a bicicletada era basicamente animada por ativistas do movimento e suas ações estavam frequentemente articuladas com as manifestações contra os encontros de cúpula do FMI, Banco Mundial e G8. No entanto, neste período a Bicicletada foi um fenômeno muito militante e pequeno (com a presença de nunca mais do que cinquenta ciclistas).

Foi apenas com a chegada de uma nova geração para a qual a mobilidade urbana era o foco central de ativismo que a bicicletada começou a ganhar dimensão e se estabelecer como um fenômeno massivo e politicamente eficaz. Foi então que a Bicicletada começou a mobilizar ciclistas dos grupos de passeio despolitizados e a fazer campanhas por ciclovias e outras políticas. Todas as conquistas posteriores como a incorporação do transporte por bicicleta na agenda política municipal, nas políticas do metrô e da CPTM e nas ações de comunicação das grandes empresas deve-se ao empenho e capacidade de articulação política desta geração posterior.

Olhando retrospectivamente, alguns dos veteranos da primeira geração se perguntam se o radicalismo global ativista dos primeiros tempos não era melhor do que a cultura excessivamente centrada na bicicleta e um tanto despolitizada dos dias atuais. Por outro lado, parece óbvio para todos que os ganhos para a causa da bicicleta, com uma abordagem mais específica, mais massiva e mais pragmática, não foram desprezíveis.

2 Responses to “Dez anos de Bicicletada: memórias da pré-história”

  1. bicicletada 10 anos: um balanço | as bicicletas Says:

    […] 10 anos. acho a análise feita pelo meu amigo pablo a melhor de todas. ela pode e deve ser lida nesse link aqui. ela é importantíssima. sim, de alguma forma ainda somos autonomistas. mas talvez autonomistas […]

  2. Bicicletada de São Paulo completa 10 anos de história Says:

    […] Leia a reflexão de Pablo Otellado: Dez anos de Bicicletada – memórias da pré-história […]

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