O fim do mundo, enfim

Para os punks da minha geração (segunda metade dos anos 1980), a geração 82 era verdadeiramente mítica. As bandas históricas da Vila Carolina e as primeiras bandas da zona sul eram apenas histórias que os mais velhos nos contavam. Nos idos de 1986-1987, quando comecei, a maior parte das primeiras bandas já tinha acabado e o Cólera era um mito ainda em atividade.

A cultura punk era ingenuamente classista (do subúrbio, como se dizia, e não da periferia), ganguista e de uma rebeldia niilista e algo existencial. Acho que não exagero ao dizer que o Cólera mudou esse panorama trazendo uma perspectiva positiva e politizante, num sentido mais de direitos humanos do que propriamente socialista ou anarquista. Vendo a apresentação do Restos de Nada e do Condutores de Cadáver pude ver com clareza a diferença das bandas dessa geração com o Cólera, que tinha trocado a rebeldia do primeiro punk, de certo modo negativa e anti-sistêmica, mas sobretudo comportamental por uma politização ingênua e adolescente. Essa inversão politizante foi a minha porta de entrada e também a de vários outros punks do final dos anos 1980 que, a partir deste outro olhar, puderam seguir diferentes caminhos.

Os anos 1980 foram os anos de encontro dos punks com os velhos militantes do movimento operário anarquista no Centro de Cultura Social; foram os anos de refundação da COB (a Confederação Operária Brasileira) e, dentro dela, do sindicato dos office-boys; foram também os anos das passeatas quase periódicas que saíam da Praça República e que juntavam punks, anarquistas e ecologistas. Naqueles anos, trabalhei com o Redson na gravadora (Alternative Indie Records, depois da cisão com a Ataque Frontal) e no extinto (?) CIC, o Centro Informativo Cólera. Rever alguns amigos e principalmente ver o Cólera, com o Pierre, depois de 25 anos e logo após a morte do Redson foi uma experiência que despertou saudade e que despertou memória.

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