Criancices (tradução)

Mais uma crônica de Barrett sobre o filho.

Meu filho tem mais de três anos. É um menino excepcional. Todos os meninos desta idade são excepcionais. Passa pelo ápice da curva delineada pelo homem. Atravessam uma época breve na qual a soma das prosperidades da carne e do espírito é maior. Flor da florida infância! Momento sagrado! O corpo, ainda rico de linhas redondas e suaves que lembram o seio que o nutriu e a amabilidade do leite, começou a estirar-se, ressequido pela brincadeira. O músculo brota. As panturrilhas bronzeadas endurecem. O peito, quando a agitação da corrida faz respirar angustiado, desenha o sólido círculo de sua caixa oculta. O pescoço adquire orgulho de pedestal, a cabeça começa a sentir-se cume e se eleva naturalmente ao céu. Os pés se tornaram ágeis e astutos. As mãos não são mais rolinhos de inválida manteiga. Sabem acariciar e quebrar e cada dedo aprende seu ofício. A pele perdeu seu rosado excessivo e um pouco vulgar dos que ainda amamentam. Uma palidez sublime, mensageira do coração, põe sua luz nas têmporas delicadas. O cabelo morno se enrola em cachinhos rebeldes. A boca, delícia úmida e vermelha onde riem, até no choro, os dentezinhos completos, é a vertigem do beijo. Os olhos transbordam inocência e também desejos inumeráveis: olhos em que cabem agora as perspectivas dos bosques e das planícies: olhos bastante profundos para retratar os mares e as estrelas, olhos em que repousará, enquanto viva, a imagem do infinito. Esses olhos claros, seus olhos… o quê? Se fecharão, me diz que fecharão?

E meu filho canta, grita, corre, turbilhão de júbilo, pequena avalanche de felicidade. Já calcularam os sábios a energia que gasta um menino da manhã à noite? Como explicam que, gastando tanta energia, cresça e se torne forte com tamanha intensidade e rapidez? Em qual aritmética estará a solução? E, além do mais, meu filho é valente! – é capaz de se aproximar de todos os precipícios, como se tivesse preservado suas asas de anjo… o quê? Cairá por fim, me diz que cairá?

Ah, nossos passeios filosóficos! Numa poça do jardim se afoga uma vespa. Nos compadecemos dela. Organizamos o salvamento. Secamos a pobre com um pauzinho. Ele queria secá-la sem apetrecho algum.

– Por que o pauzinho? – me pergunta

– Porque há vespas que picam, ai!, até quando as socorremos…

Às vezes nos arriscamos sobre o longo caminho, o caminho que nunca acaba. Fico cansado muito antes dele. E falamos. E passamos por pessoas e por animais, por uma vaca…

– Papai, essa vaca que está vindo, quem é?

– Não sei, meu filho.

Quase sempre tenho que responder a mesma coisa: “Não sei” O quê? Me diz que ele também não saberá, que partirá sem saber nada?…

Uma caravana de formigas atravessa nosso caminho. É preciso respeitá-las. Meu filho, acostumado que as galinhas e os cachorros pequenos fujam dele, contempla as formigas silenciosamente e depois me interroga:

– Papai, porque elas não se assustam comigo?

– Porque não te vêm, meu filho. Você é grande demais…

Está rindo? O que teria respondido? Daqueles lábios saem enigmas terríveis. Salomão conseguiu satisfazer a rainha de Sabá. Duvido que meu filho partisse satisfeito. Não há rainha que tenha a imaginação de um menino de três anos! Poetas orgulhosos da própria imaginação: conseguiriam jogar três horas com pedrinhas e cascas de nozes? Poderiam, como meu filho, infundir uma alma brilhante ao mais inerte, escuro, mutilado, morto, a um amontoado de terra, a um pedaço de pano? Se a imaginação chegasse a vos representar a alma alheia, a dor alheia, homens cultos, tratariam uns aos outros como máquinas?

Para meu filho não há máquinas até hoje em todo o universo. Tudo respira, tudo é instinto e vontade. Tudo convida ou ameaça. Tudo é digno de amor ou de ódio. Assim deve ter sido a aurora do mundo… O que? Morrerá? Me diz que meu filho morrerá?…

Publicado em La Razón em 29 de julho de 1910.

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