A estratégia da cenoura na gestão científica

Os anglo-saxões utilizam muito a imagem das duas maneiras de se domar um burro, castigando com a vara ou estimulando com a cenoura. A imagem é útil para explicar como a comunidade científica brasileira tem sido conduzida pelos seus gestores nos últimos anos. Acostumada a defender sua autonomia, a estratégia da vara há muito foi substituída pela da cenoura. Embora violando no mesmo grau a autonomia de pesquisa, a estratégia tem se mostrado muito bem sucedida. A política de bolsas das agências de fomento pode ser uma boa ilustração.

Há alguns anos notei a disparidade do padrão de vida que eu levava como estudante de pós-graduação nos anos 1990 com o dos meus estudantes de pós-graduação hoje. Então, resgatei os valores de bolsas da FAPESP dos anos 1990 até o ano passado e os atualizei segundo o índice anual de inflação do IPCA. Qual não foi a surpresa ao notar que o valor da bolsa de doutorado de hoje, equivale quase exatamente ao valor da bolsa de mestrado dos anos 1990. E a bolsa de mestrado de hoje foi reduzida a 60% do seu valor histórico.

Esse processo de desvalorização foi resultado simplesmente de um congelamento do valor por dez anos, o que fez com que em 2003 o velho mestrado e o novo doutorado mais ou menos coincidissem (veja o gráfico). Aplicando como deflator o índice anual do IPCA, a bolsa de Mestrado da FAPESP (MS2) que era de R$ 1.030 em 1996 equivaleria hoje a R$ 2.570. No entanto, o valor da bolsa hoje é de apenas R$ 1.568.

Provavelmente não é coincidência que, neste período, a FAPESP tenha abertamente estimulado o doutorado direto. Aparentemente, ela reduziu os valores das bolsas de mestrado e de doutorado, tentando nivelar economicamente o velho mestrado com o novo doutorado (que deveria ser feito direto).

Essa estratégia, se foi de fato utilizada, é muito semelhante a outras tantas utilizadas pelos nossos gestores. Vimos isso no incremento das linhas de fomento científico pré-definidas (e não sob livre demanda); em programas como o REUNI que concedia verbas adicionais a quem aceitasse as regras de expansão definidas pelo governo federal; e vemos também nas estaduais paulistas que introduziram um sistema de avaliação por meio de novos níveis horizontais na carreira. Embora refratária a políticas de controle direto, a universidade tem se mostrado bastante dócil com a estratégia da cenoura.

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