A fábrica de papers

A organização do trabalho na universidade está passando por uma profunda modificação: ela não é mais voltada para a realização de pesquisas exemplares que disputem o reconhecimento dos pares, mas para a conquista de metas de produtividade que gerem reconhecimento credencial das instituições de avaliação. A universidade se parece cada vez menos com um colegiado aristocrático de cientistas desinteressados e cada vez mais com uma fábrica de papers: uma fábrica povoada de operários obedientes. O resultado desta mudança de perfil organizacional não é apenas burocratização e aceleração do trabalho – ela também gera uma profunda corrupção do sistema de comunicação científica.

Um mercado concorrencial de papers

A pesquisa universitária se constituiu modernamente segundo o modelo do colegiado aristocrático de cientistas desinteressados – pesquisadores que, emancipados da lógica econômica, podiam ociosamente investigar o mundo. Para isso foram criados os sistemas de estabilidade (as cátedras e os tenures) e independência acadêmicas (autonomia de pesquisa) que simulavam as condições sociais da pesquisa aristocrática do século XVIII. Embora houvesse algo de anacrônico neste modelo, ele parece ter se ajustado bem às estruturas capitalistas modernas até o fim do boom científico posterior à segunda guerra mundial. No entanto, junto com a crise do estado de bem-estar, a “excepcionalidade” organizacional da ciência foi posta em xeque. Não há ainda consenso sobre o que causou essa mudança. Dardot e Laval, num artigo célebre, atribuem essa mudança ao neoliberalismo – que não consistiria na simples desregulamentação econômica, mas na ampliação da lógica da competição de mercado para todas as esferas da vida. Uma outra explicação para o fenômeno seria a emergência da economia do conhecimento que teria aproximado as formas de organização da empresa capitalista e da universidade num processo que Steven Vallas e Daniel Kleinman chamaram de “convergência assimétrica”.

Seja qual for a explicação, o princípio orientador da mudança em curso faz a universidade operar como se fosse uma fábrica produzindo para um mercado concorrencial. Apesar de não ser uma organização econômica e não vender papers, a universidade passa a ser pensada no modelo input (trabalho humano)/ output (papers e patentes) e se orientar por metas objetivas e crescentes de produtividade. Quando os propositores do modelo são chamados a se explicar, geralmente expressam dois tipos de preocupação: por um lado, diminuir a ociosidade e aumentar a “intensidade” da atividade científica (chamada, sem meias palavras, de “produtividade”) e, por outro, aperfeiçoar os processos de avaliação administrativa fornecendo parâmetros objetivos de mensuração do sucesso.

O objetivo da revolução gerencial na universidade parece ser o de laborizar a atividade científica, submetendo-a a padrões de gestão empresarial. Mas por que o modelo econômico-gerencial deveria ser adequado para gerir a ciência? Em outras palavras, precisamos, os cientistas, ser menos “ociosos” e ter padrões “quantitativos” de administração e controle?

O quantitativo e o qualitativo

Ao introduzir indicadores quantitativos para controlar o trabalho científico, o modelo econômico-gerencial enfrenta uma dificuldade: os resultados da pesquisa científica não têm uma dimensão quantitativa inerente cuja relevância seja suficiente para a avaliação. O único critério quantitativo imediato é o número de artigos produzidos. No entanto, esse indicador isolado é muito impreciso, já que os papers variam em qualidade. O que faz então é incorporar e quantificar a avaliação qualitativa do sistema de publicação por pares das revistas científicas: presumindo que a avaliação da qualidade foi feita pelas revistas científicas, passa-se a quantificar o número de artigos publicados em revistas com revisão por pares. Mas esse novo indicador ainda é impreciso já que os periódicos diferem em rigor de avaliação. Por isso, são utilizados critérios adicionais como os de fator de impacto (a quantidade média de vezes que um artigo de uma determinada revista é citado) para ponderar o valor da publicação em cada revista. Ainda para evitar imprecisões, o sistema restringe a comparação da avaliação apenas para um mesmo campo científico. O resultado é um sistema de pontos onde cada artigo é ponderado por um fator relativo à importância da revista. Gera-se assim uma pontuação que permite hierarquizar todos os cientistas de um campo científico de acordo com a sua “produtividade”: quanto mais artigos se publica em revistas importantes, mais produtivo se é. Essa pontuação fornece parâmetros objetivos para todas as necessidades de seleção do sistema de administração da ciência: a contratação, a promoção na carreira e a distribuição das verbas de pesquisa.

Embora evidentemente facilite a administração científica, ao baseá-la em indicadores, o sistema de avaliação científica econômico-gerencial tem pressupostos de duvidosa razoabilidade. Poucos cientistas considerariam razoável comparar e hierarquizar quantitativamente dois artigos sérios de pares de duas sub-áreas distintas – por exemplo, um artigo de sociologia da religião e um artigo de sociologia do trabalho. Que tipo de critério não arbitrário permitiria definir qual artigo é “melhor” e ainda por cima quantificar esse grau de superioridade qualitativa? Ao hierarquizar as revistas e conceder a elas pontos distintos, a avaliação faz justamente isso: diz que um artigo publicado na revista A é “1,7 vezes melhor” que um artigo publicado na revista B, independente do seu conteúdo. Diz também que uma pesquisa que gera quatro artigos é “duas vezes melhor” que uma pesquisa que gera apenas dois.

Uma vez explicitados os fundamentos lógicos do sistema de avaliação, eles parecem simplesmente absurdos.

Corrupção da comunicação científica

Ao publicizar as regras, o sistema de avaliação estimula os cientistas a competirem entre si para maximizar as chances de publicação nas melhores revistas, criando um mercado concorrencial. Em tese, esta competição levaria os melhores cientistas a terem seus papers mais frequentemente aceitos pelas melhores publicações. No entanto, o resultado é uma disputa por produção de indicadores e não pela qualidade dos artigos. Se forem atores racionais orientados para maximizar os seus interesses de serem contratados, subirem na carreira e aumentarem suas verbas de pesquisa, os cientistas não priorizarão fazer pesquisas de qualidade, mas gerar o maior número de papers com potencial de serem aceitos em revistas bem avaliadas.

É justamente o desacordo entre os dois objetivos que leva à corrupção do sistema de comunicação científica. Quando a ciência se orientava para a disputa por reputação, os cientistas se empenhavam em realizar pesquisas exemplares que impressionassem o julgamento qualitativo dos pares. Com o sistema de avaliação econômico-gerencial esse objetivo é subordinado ao de atender os indicadores de produtividade de pesquisa. Isso não apenas faz com um tempo excessivo seja dedicado às estratégias de publicação, como estimula e legitima práticas de comunicação corrompidas: publicar o mesmo argumento em artigos diferentes; apresentar uma mesma ideia em partes, publicadas em diferentes artigos; publicar ideias imaturas; co-assinar artigos nos quais a colaboração foi apenas pontual; etc.

Num sistema concorrencial com avaliação puramente quantitativa e regras publicizadas, o purismo de se abster destas práticas corrompidas é apenas moralismo antieconômico. Do ponto de vista sistêmico, o recurso às práticas corrompidas está disponível a todos – bons e maus cientistas – e cabe apenas aos bons se aproveitar mais das oportunidades do que os maus.

Mas esse ainda não é o problema principal. O conjunto do sistema de comunicação científica se desarticula com a disseminação destas práticas. Como o sistema premia o número de artigos publicados, o resultado é um inchaço do número de artigos que faz multiplicar a irrelevância, a repetição e a fragmentação. Torna-se assim cada vez mais difícil encontrar o artigo importante no meio do oceano de papers irrelevantes, redundantes e parciais que nunca deveriam ter sido publicados. Em muitas áreas consolidadas, a quantidade de artigos é tamanha que já não é mais possível fazer uma revisão bibliográfica completa. A situação chegou a um ponto tão crítico que um recente estudo encomendado por gestores de importantes universidades americanas comparou o processo a uma “corrida armamentista” e recomendou com urgência a adoção de políticas de “publicação responsável”.

Além da crítica negativa

A avaliação econômico-gerencial não consegue de maneira apropriada separar a boa da má pesquisa, é incapaz de hierarquizar os cientistas de um mesmo campo e submete os pesquisadores a um regime de produção acelerado e orientado para a publicação de artigos supérfluos. Ela coloca os cientistas na condição de operários e os gestores na condição de patrões impiedosos.

A comunidade científica, no entanto, tem muitas vezes resistido a essas investidas contra os seus valores e práticas tradicionais de uma maneira negativa. Isso permite que os gestores assumam a cômoda posição de dizer que o modelo econômico-gerencial é o único modelo de avaliação disponível e que os opositores a ele não dispõem de um paradigma que seja operacional. Com o crescimento do sistema universitário e o aumento da pressão social pelo controle dos gastos com a ciência há uma urgente necessidade de um modelo de avaliação que permita a supervisão pública e critérios de distribuição dos recursos.

Por isso, precisamos desenvolver um sistema de avaliação que esteja de acordo com os nossos valores: que seja democraticamente construído e acordado; que seja fundamentalmente qualitativo e realizado por pares; que avalie os ciclos de pesquisa, respeitando a sazonalidade da divulgação dos resultados; que compreenda o valor das diferentes modalidades de publicação (relatórios técnicos, livros, apresentações em congressos etc.); que tenha parâmetros internos às diferentes áreas; que compreenda as particularidades das novas áreas (que não têm departamentos e programas, nem revistas e congressos) e das áreas interdisciplinares (cujos resultados são apresentados e publicados em campos de pesquisa diferentes).

Reunir essas preocupações num sistema de avaliação viável não parece um objetivo inexequível. Se queremos sair da posição de operários obedientes precisamos abandonar a fábrica e construir uma alternativa a ela. Não é suficente reclamar do patrão ao final da jornada.

Referências:

Dardot, P.; Laval, C. Néolibéralisme et subjectivation capitaliste. Cités. v. 1, n. 41, 2010. p. 35-50.

Kleinman, D. L.; Vallas, S. P. Science, capitalism, and the rise of the ‘knowledge worker’: The changing structure of knowledge production in the United States. Theory and Society. v. 30, n. 4, 2001. p. 451-492.

Kleinman, D. L.; Vallas, S. P. Contradiction, Convergence, and the Knowledge Economy: The Co-Evolution of Academic and Commercial Biotechnology. Socio-Economic Review. v. 6, n. 2, 2008. p. 283-311.

Hartley, D.; Acord, S. K. Peer Review in Academic Promotion and Publishing: Its Meaning, Locus, and Future. Berkeley: Center for Studies in Higher Education, 2011.

8 Responses to “A fábrica de papers”

  1. Marcio Says:

    Perfeito o artigo, muito obrigado!

    Valem duas observações: a primeira é de que o sistema “desinteressado” e mais antigo se articula, a despeito do “desinteresse”, com o que diz respeito ao debate público por excelência, pois tal “desinteresse” se articularia tradicionalmente com termos tais como “universalidade”, “razão pública” e afins.

    Outra observação é sobre o impacto desse sistema nas práticas brasileiras. O artigo aponta muito bem alguns mecanismos muito repetidos por aqui. Vale chamar a atenção ao “plus” brasileiro que reside no “jeitinho” em utilizar redes de cupinchagem tanto para produzir artigos quanto para aprová-los em revistas concorridas.

  2. Fronteiras do Ciência Sem Fronteiras « catatau Says:

    […] sim responsabilidade sobre essa “não prioridade” de sua disciplina, por motivos como esse (que na modalidade brasileira se aplicam também às pesquisas de exatas, apenas com a diferença […]

  3. Qualidade na educação: uma noção neoliberal do darwinismo pedagógico « Matutações Says:

    […] Ou seja, a eficácia pode operar como uma forma extrema de dissimulação, como sucede com a farsa das publicações “científicas” na Colômbia, na qual se supõe que o simples fato de que uma revista esteja indexada e reconhecida […]

  4. patfranca Says:

    Há ainda um problema muito sério que consiste nos critérios de direitos autorais. Há bolseiros de investigação que são contratados, com fundos públicos, para trabalhar em projectos de investigação em universidades, também elas públicas. Muitas vezes são estes bolseiros que fazem todo ou a maioria do trabalho de investigação mas nem sequer vêem o seu nome nos papers que depois são publicados. Ou seja, os bolseiros fazem o grosso do trabalho e, depois, os papers são publicados com a autoria do responsável do projecto e dos professores a eles associados. Isto está claramente errado. No entanto, é um procedimento mais habitual do que seria de esperar.

  5. Antonio Guimarães Says:

    As políticas de fomento baseadas no produtivismo já estão saturadas quanto ao que poderiam obter. Passaram a gerar distorções e dificultar o próximo passo a ser dado na produção científica nacional que é adquirir qualidade e impactos (tanto acadêmicos como econômicos e sociais). Entretanto as agências (CNPq, FAPESP, etc) e outras instituições acadêmicas ainda não se deram conta da mudança de paradígma.

  6. Daniel S. lacerda Says:

    Pablo, esse seu artigo é o tipo de produção que já devia te valer 50 pontos, se existisse uma forma ideal de se medir quantitativamente contribuição a ciencia. Mas também é o tipo de produção e debate que não encontramos nas publicações “conceituadas”.

  7. Junior Says:

    Concordo em muito com o que foi dito, entretanto, algumas partes estão em dissonância. Por exemplo, existem muitos, muuitos mesmo, estudantes de mestrado e doutorado que não publicam suas dissertações/teses. Ficam recebendo bolsa do governo e não gostam do que fazem, mas estão lá puramente pelo $$$. Então muitas universidades obrigam os alunos a publicarem seus trabalhos. É uma alternativa autoritária, porém necessária frente aos fatos. E nem sempre os trabalhos publicados são de qualidade, porém os julgo mais válidos que as próprias teses/dissertações escritas pura e simplesmente para a biblioteca. E se tratando que mestrandos e doutorandos são uma parte considerável da produção científica brasileira, a depreciação da qualidade dos papers pode ser explicada em parte (ano menos no Brasil). Esse é um ponto.
    Outro é sobre o fato da qualidade/quantidade do material produzido. Sim, hoje as pesquisas estão voltadas para a produção de papers. O meu trabalho de doutorado, por exemplo, já está direcionado na forma de publicação. Ao menos 4 papers a serem publicados em periódicos internacionais indexados. Mas esse direcionamento, no meu ver, não tira a qualidade do meu trabalho. As vezes até penso o contrário, ele contribui com um pensamento científico de como fazer ciência nos dias atuais: todo trabalho científico deve ser realizado de maneira criteriosa, e igualmente criteriosa deve ser a sua exposição e comunicação. Não vejo problema nisso. Se o periódico for sério, certamente um paper de qualidade duvidosa dificlmente será aceito. Também não vejo grandes e sérios problemas em fragmentar uma publicação. As vezes duas publicações mais objetivas e curtas ficam melhores que uma única, longa e cansativa.

  8. Luiz Eduardo R. de Carvalho Says:

    Guimarães: Considerar impactos em vez de quantidades não seria mudança de paradigma, mas apenas uma maquiagem nesse paradigma para obstar a “revolução”, a quebra, e dar sobrevivência a esse paradigma. Os “impactos” já estão igualmente prenhes de distorções. Ademais, nada disso aí compõe uma Política Científica. PosGrad não é a “ciencia”, mas a formação de recursos humanos para, depois sim, fazer ciencia. A soma das teses de doutorado não conformam um acervo de inovações científicas, mas apenas uma estante onde relatórios velhos de alunos ficam acumulando pó e atraindo baratas. PosGrad é ENSINO. Pesquisa é outra coisa.

Leave a Reply

*