Argentina: relato de viagem (2002)

Logo após as históricas jornadas do 19 e 20 de dezembro de 2001, fiz duas viagens à Argentina. A primeira em fevereiro, logo após o Fórum Social Mundial de Porto Alegre e a segunda em julho. Depois desta segunda viagem publiquei no CMI um relato registrando minhas impressões dos instigantes processos sociais pelos quais passava o país. Agora, na comemoração dos dez anos do “19 y 20”, reproduzo aqui no blog o relato. ¡Que Se Vayan Todos!

Um episódio poderia bem resumir o sentimento que me tomou durante a viagem… Estava com um grupo grande de argentinos, alguns amigos do CMI do Brasil e dois espanhóis do Movimento de Resistência Global da Catalunha (AGP) quando nos dirigimos a uma assembléia no bairro de La Paternal, no norte de Buenos Aires. A assembléia acontecia em um banco que havia falido, um prédio de 5 andares ocupado pelas pessoas do bairro. Uma discussão viva animava os participantes que pensavam nas possibilidades de uso do espaço recém tomado. Eram umas 50 pessoas, com idade variando entre 15 e 70 anos. A mais jovem dos participantes, uma anarquista de 15 anos, ativa no movimento dos estudantes secundaristas autogestionários, nos recebeu com um sorriso e nos levou a dar uma volta naquele prédio enorme… Vimos o cofre, no porão do prédio, onde no passado eram guardadas grandes somas; depois subimos para os 4 andares superiores e vimos os escritórios e os salões. No terraço, tínhamos uma linda vista da avenida, cheia de carros e podíamos ver também os cafés e os escritórios dos prédios em frente. Era uma sensação esquisita. A Argentina está passando por um processo intenso. São 180 fábricas ocupadas, 120 assembléias reunidas periodicamente apenas na cidade de Buenos Aires, 18 ocupações na capital, dezenas de outras na periferia, dezenas de iniciativas produtivas autônomas dos piqueteiros… Apesar disso, a vida continuava, como se nada acontecesse. Do alto do banco ocupado podíamos ver os táxis, os escritórios e os cafés. Dava a impressão que muita gente ali estava vivendo sem que sequer soubesse dessa efervescência subterrânea… Era estranho.

PIQUETEIROS

No dia em que cheguei (sexta, dia 26 de julho), participei de uma manifestação de piqueteiros junto à ponte Pueyrredón, local onde exatamente um mês antes, dois jovens piqueteros Maximiliano Costecki y Dario Santillan tinham sido assassinatos pela polícia. A manifestação começou pela manhã e terminou no final do dia, lá pelas 19 horas. Era uma manifestação tradicional, com um caminhão de som, discursos e bandeiras de partido. Apenas na frente da manifestação podia-se ver algo diferente, uma série de bonecos gigantes produzidos numa oficina com piqueteiros dada por um ativista americano. Apesar do caráter tradicional, aquela era uma manifestação muito especial. Ela lembrava os assassinatos dos piqueteros e era chamada pela coordenadoria Anibal Verón, a coordenadoria autônoma do movimento dos piqueteiros.

Piqueteiros é um nome geral dado para os vários MTDs (Movimentos dos Trabalhadores Desempregados) reunidos nos bairros de periferia de Buenos Aires e nas províncias argentinas (interior). Os MTDs locais, em geral, se reúnem em coordenadorias. Assim, existe uma coordenadoria ligada ao Partido Comunista, outra ligada a partidos trotskistas e a coordenadoria Anibal Veron, que reúne os MTDs horizontais e apartidários. No dia 26 de junho, diversos MTDs fizeram protestos bloqueando todos os acessos à capital e, na ponte Pueyrredón, no sul de Buenos Aires, um MTD ligado à coordenadoria Anibal Veron fez o bloqueio. Ali, policiais iniciaram um frio massacre que resultou na morte dos dois jovens e em dezenas de feridos. Imagens veiculadas pelo CMI Argentina e pela imprensa corporativa, mostraram os dois rapazes sendo detidos e depois aparecendo misteriosamente mortos — apenas minutos depois.

O protesto no dia 26 de julho consistia em lembrar os assassinatos e exigir justiça — tanto para os assassinatos quanto para a causa piqueteira. Depois de discursos e apresentações artísticas por todo o dia, as pessoas saíram em manifestação da ponte até a estação de metrô, local onde os assassinatos tinham ocorrido. Lá, onde o corpo de Dario foi encontrado, muitas pinturas, flores e uma placa que me deixou emocionado. A placa era em memória de Maximiliano e Darío e de sua luta e era assinada pelas indústrias Zanon, uma fábrica ocupada, agora sob controle operário.

Os piqueteiros são chamados assim, porque sua forma de protesto mais tradicional são os piquetes: os cortes de rua. Mas as atividades dos piqueteiros vão muito além disso. Nos bairros, os piqueteiros criam inúmeras formas de auto-ajuda comunitária: restaurantes populares, padarias, centros de saúde… Nos MTDs da coordenadoria Anibal Verón, essas iniciativas são em geral autogeridas e os cargos de controle revogáveis e rotativos. Os desempregados na Argentina recebem um auxílio miserável (100 pesos – mais ou menos 100 reais – por chefe de família) e, com esse dinheiro, eles criam as padarias, os restaurantes e os centros de saúde. A forma como tudo isso é gerido e organizado varia muito, mas pude perceber que muitos grupos piqueteiros têm a ambição de construir iniciativas locais dissociadas da lógica de mercado. Grande desafio.

ASSEMBLÉIAS

Junto com o movimento dos piqueteiros, o movimento das assembléias é a coisa mais interessante no panorama político argentino. Mais ou menos junto com os panelaços que derrubaram o presidente De la Rua nos dias 19 e 20 de dezembro, começaram a surgir um pouco espontaneamente assembléias nos bairros. Pelo que me contaram, a história das diferentes assembléias é sempre mais ou menos assim. Alguém no bairro soltou um chamado, colou nos postes e distribuiu em pontos chave, marcando um encontro para discutir os problemas da vizinhança e a situação do país. Assim, em diversos bairros, as coisas foram acontecendo meio espontaneamente e, de repente, mais de 120 assembléias estavam constituídas na capital federal, cobrindo praticamente todos os bairros. Além disso, haviam assembléias na periferia e em cidades do interior (só em Rosário eram mais de 30). No início, logo depois das mobilizações de dezembro, as assembléias eram super lotadas, mas, com o tempo, as coisas acalmaram e o número de pessoas participando reduziu bastante. Mesmo assim, as assembléias reúnem em média 50 pessoas cada uma e se reúnem entre uma e quatro vezes por semana, dependendo do bairro.

O perfil do assembleísta chama a atenção. Eu estive em pelo menos quatro assembléias diferentes e me chamou atenção a idade dos participantes – tipicamente entre 40 e 60 anos. Há também a participação de jovens, mas a geração que era militante nos anos 70 domina a cena. Isso, evidentemente, traz vantagens e problemas. Vantagens porque há muita gente experiente e influente — profissionais que podem ajudar com milhões de coisas nos problemas do bairro. Desvantagens porque essa geração é muito viciada em modelos hierárquicos e muitos estão ligados a partido.

A questão dos partidos é capítulo a parte. A revolta popular dos dias 19 e 20 de dezembro foi em grande medida uma revolta contra os políticos em geral e, de certa maneira, contra a política institucional como um todo. Segundo me contaram, logo nos dias seguintes, durante as manifestações, qualquer pessoa que ousasse levantar uma bandeira de partido em uma manifestação, mesmo que fosse de um partido de esquerda era vaiado e execrado. Todos os políticos eram xingados na rua e os cafés e restaurantes se recusavam a serví-los. O lema dessa mobilização e que ainda é cantado em muitas assembléias é: “Que se vayan todos. Que no quede ningun solo!” (Que todos vão embora e que não sobre mais nenhum!) Claro que desde o começo os partidos trotskistas achavam que o “todos” não se aplicava a eles, mas apenas aos políticos de direita… Mas eles viram nesses primeiros dias que também suas bandeiras e atitudes buscando o aparelhamento do movimento eram execradas… No entanto, com o passar do tempo, muitas das pessoas menos politizadas deixaram de frequentar as assembléias e a proporção de pessoas partidárias aumentou muito. Em todas as assembléias que estive, em um momento ou noutro, de forma direta ou indireta, se discutiu a relação com os partidos e a política institucional. Eram brigas intermináveis…

Ainda sobre as assembléias há algo que me chamou muito a atenção: as bandeiras argentinas, que estão estendidas em todas elas. Há uma forte tendência nacionalista e “patriótica” opondo-se à crise cuja origem geralmente se atribui ao FMI. Além disso, também me surpreendou o machismo e homofobia de muitos participantes, num nível muito incomum em círculos de esquerda aqui no Brasil. Aparentemente, isso se deve ao ainda considerável número de pessoas antes não politizadas que desde dezembro começaram a se interessar pela política por meio dos panelaços e das assembléias.

Finalmente, uma última nota sobre as ocupações. Nas últimas semanas, diversas assembléias começaram a ocupar espaços desocupados nos bairros. Eu estive em algumas delas… São mercados, bancos falidos, casas velhas e fábricas que estão sendo apropriados pelas assembléias e transformados em habitação, restaurantes populares e centros culturais. Até minha ida de Buenos Aires, já eram 18 ocupações desse tipo na capital federal. É uma coisa realmente impressionante, principalmente a ocupação de bancos… e a repressão tem sido muito muito leve, provavelmente por causa do imenso apoio popular e legitimidade das assembléias.

FÁBRICAS OCUPADAS

Eu visitei uma das fábricas ocupadas mais conhecidas da Argentina, a fábrica Brukman, que produz ternos. É uma fábrica com 150 operários, dos quais 50 desistiram do processo autogestionário… Ela faliu há uns 8 meses e os funcionários assumiram a gestão. Os métodos de trabalho foram mudados, a assembléia semanal se constituiu como instância soberana de gestão e toda a matéria prima que havia foi transformada em produção para conseguir fundos para mais insumos e fazer a fábrica voltar a operar sob “controle operário”. A fábrica Brukman, assim como as cerâmicas Zanon são muito conhecidas porque, ao contrário das outras 180 fábricas ocupadas no país, elas não optaram pelo modelo de cooperativas. A Brukman e a Zanon defendem a estatização das fábricas sob controle operário, ou seja, elas seriam do estado e produziriam para o estado, mas a gestão seria operária. Segundo seu argumento, o modelo de “gestão operária” em oposição ao modelo de “cooperativa” permitiria que a fábrica produzisse fora do mercado e resguardasse os princípios de gestão democrática contra as pressões do mercado.

Há, no entanto, um outro ingrediente que não sei precisar: a influência dos partidos. A reivindicação por uma “estatização sob gestão operária” faz parte do programa de pelo menos dois dos principais partidos trotskistas, o PO (Partido Operário) e o PTS (Partido dos Trabalhadores Socialistas). Não sei até que ponto eles estão inseridos nas duas fábricas, mas são eles sem dúvida os maiores propagandistas delas. Eu pesquisei com alguns amigos que trabalham ajudando a Brukman e parece que a influência do PTS é limitada.

HIJOS

Há muitos grupos na Argentina fazendo coisas interessantes, mas um que me chamou especial atenção foram os Hijos (filhos). É uma associação dos filhos dos desaparecidos políticos que fazem campanhas semelhantes (quanto ao objetivo) à das Mães da Praça de Maio. No entanto, seu modo de organização e suas ações são bem diferentes. Eles dizem claramente que lutam por justiça e pela memória dos pais e que, em certo sentido, continuam o trabalho revolucionário dos pais, mas que, seus métodos e formas de ação são bem diferentes. Eles são bastante horizontais e apartidários e desenvolveram um método de ação muito interessante: o escrache. Eles identificam ex-torturadores da época da ditadura, localizam a casa do sujeito, o local onde trabalham, etc. e fazem um escrache. O escrache consiste numa campanha de “esclarecimento” junto a comunidade onde o cara vive. Eles vão no mercadinho, vão na padaria, nos cafés, etc. e falam para a comunidade do bairro o que o cara fez, que ele torturou gente, espancou, etc. Eles também põem centenas de cartazes no bairro com a foto do sujeito e dizeres do tipo “Nesse bairro vive um torturador”. Muitas vezes eles também põem no cartaz o telefone do cara para as pessoas ligarem e insultarem. Depois, no dia do escrache propriamente dito, os Hijos chamam uma espécie de manifestação e vem gente de toda parte para jogar ovos e tomates na casa do sujeito… Há também manifestações artísticas, discursos, etc… O que é surpreendente é que essas campanhas são muito populares e parecem funcionar. Frequentemente os ex-torturadores são obrigados a mudar de bairro e se esconder porque não aguentam a pressão popular. Tudo isso, é claro, é feito com muito critério. Há muita pesquisa, juntam-se depoimentos, etc. para evitar que se cometam injustiças. Aliás, o mote dos escraches é que se a justiça não funciona, então as pessoas mesmo devem fazê-la.

Os escraches terminaram se popularizando nos últimos tempos e hoje todo mundo faz escrache por tudo… Na semana que estive em Buenos Aires, por exemplo, houve um escrache contra um empresário de comunicação muito direitista durante a entrega de um prêmio (Prêmio Martin Fierro, algo como o nosso Troféu Imprensa). Aí o escrache se resume mais a uma manifestação, etc. mas é também muito centrado na pessoa.

ANARQUISTAS

Fiz um esforço para visitar alguns grupos libertários em Buenos Aires e foi muito agradável conhecer os compas de lá. Há muitos muitos grupos anarquistas em atividade, mas, infelizmente eles são pequenos e estão apenas parcialmente em contato. Há também muitas brigas… Os grupos mais antigos são a FLA (Federação Libertária Argentina) e a FORA (Federação Operária Revolucionária Argentina). A FLA é um pouco como o CCS em São Paulo e os ateneus em outras cidades. Ela foi fundada em 1936 e permanece em atividade até hoje. Têm uma casa bem grande, com livraria, biblioteca e local para reuniões e atividades culturais. Fomos recebidos lá com muito carinho, o que nos comeveu muito. A FORA foi o primeiro grande sindicato anarquista (um pouco como a COB, no Brasil) e era de orientação predominantemente anarco-sindicalista. Da mesma forma que a COB aqui, ela foi esvaziada com a ascenção dos bolcheviques e há pessoas lutando por reativá-la. Além desses grupos “históricos” há muitos grupos novos, muitos dos quais reunidos na OSL (Organização Socialista Libertária), de orientação plataformista. Além disso, há alguns grupos muito ativos no movimento secundarista, que estão lutando pela autogestão dos grêmios estudantis e por formas de luta voltadas para a ação direta.

AUTODETERMINAÇÃO E LIBERDADE

Não podia deixar de mencionar esse curioso agrupamento, muito peculiar à cena política argentina. Autodeterminação e Liberdade é uma espécie de movimento, fundado pelo deputado Luis Zamora e que busca promover a autoorganização horizontal em todas as esferas. O curioso, no entanto, é que eles são teoricamente contra a representação e seu fundador é um deputado… No momento em que estava na Argentina, Autodeterminação e Liberdade discutia num congresso com 3 mil pessoas se lançaria ou não Luis Zamora para presidente. Em pesquisas, ele aparece com 10 por cento dos votos. Eu realmente gostaria de ter tido mais contato com eles, por curiosidade. Eu tentei marcar uma entrevista com o Zamora para o CMI, mas não era possível naquela semana. Zamora era membro do MAS (Movimento Ao Socialismo) que era o maior partido trostskista da América Latina e foi o primeiro deputado trotskista do continente. Depois, se desiludiu e ficou meio perdido como muita gente que saiu do MAS. Esse movimento surgiu com a proposta de garantir a horizontalidade e a democracia participativa nas diferentes instâncias, embora eles tenham um estranho projeto de inserir a democracia direta na democracia representativa.

POUPADORES/ APOSENTADOS

Outra peculiaridade na cena argentina é o movimento dos poupadores e dos aposentados. Os aposentados estão mobilizados e organizados desde antes da crise, mas, depois de tudo, ganharam força e fazem 3 protestos semanais exigindo seus direitos. Os poupadores são um caso à parte. São pessoas que tinham economia nos bancos e não podem sacar o dinheiro devido às medidas de contenção dos saques pelo governo (o famoso “corralito”). O movimento dos poupadores (ahorristas) é bastante despolitizado, mas eles se sentem muito injustiçados e suas manifestações são bem fortes. Em geral, eles chegam com muitos martelos e ficam batendo nos vidros e nas portas dos bancos. Como disse um amigo, é como se a sua avó resolvesse entrar para o Black Bloc.

Bem, acho que isso é tudo. Há muitas histórias que escutei e conheci muitos grupos pequenos que têm feito um excelente trabalho, mas este relato já está grande demais. Recomendo a todos que queiram se atualizar sobre o que se passa na Argentina a visitar o site: http://www.argentina.indymedia.org

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