Um artigo inconcluso: Considerações sobre a política nos grupos autônomos

Em novembro de 2010, achei que valia a pena escrever algo refletindo sobre o meu afastamento do Centro de Mídia Independente, um projeto coletivo ao qual dediquei os meus melhores anos. Eu deveria assinar o texto (abaixo) junto com outra companheira que havia se afastado por motivos semelhantes. Nós nunca concluímos o artigo mas o encontrei há pouco no HD e achei que as reflexões, mesmo inconclusas, justificavam sua difusão.

Em geral, quando alguém se afasta de um grupo junto ao qual militava, o faz com um pedido de desculpas (minha vida não permite mais) ou com críticas ou acusações (de que o grupo se desviou do caminho original ou que não tratou a pessoa de maneira adequada). No segundo caso, que é o caso em que o afastamento tem relevância política, é difícil que as críticas de quem sai sejam apresentadas de maneira impessoal e refletida, permitindo que o coletivo que permanece na luta possa receber de maneira organizada e construtiva o pensamento dissidente. Esse texto é um esforço de reflexão solidária de pessoas que permaneceram na luta tempo suficiente para acumular algumas reflexões e agora as oferecem aos companheiros que ficam. Ele reflete sobre problemas que não são característicos deste ou daquele coletivo em particular, mas que são próprios dos grupos autônomos de uma maneira geral – pelo menos daqueles com um componente contracultural. Acreditamos que os companheiros com alguma bagagem não terão dificuldade em localizar as referências.

O público e o privado em coletivos autônomos

Um dos traços distintivos da política autônoma é que ela é organizada por meio de grupos de afinidade – um termo que se origina na forma de organização dos coletivos anarquistas da FAI (Federação Anarquista Ibérica), no período anterior à revolução de 1936, mas que ganhou um sentido um pouco diferente nos últimos anos. Originalmente, os grupos de afinidade eram pequenas células de militantes com alto grau de confiança e compromisso ideológico que garantiam aos seus membros auxílio-mútuo e proteção no trabalho revolucionário. Depois, a partir dos anos 1970, o grupo de afinidade foi a forma adotada para organizar campanhas de ação direta na luta anti-nuclear, feminista e, mais tarde, do movimento antiglobalização. Desde as suas origens na Espanha pré-revolucionária, a forma de organização por grupos de afinidade cria um vínculo entre a vida comunitária e a vida propriamente política. No entanto, essa ligação da vida da pequena comunidade de amigos solidários e a ação na grande comunidade política, pôde tanto promover politicamente a vida comunitária, como degradar a experiência política. É este último o risco que vemos na prática dos grupos autônomos que incorporaram a cultura organizativa dos grupos de afinidade mesmo quando supostamente buscaram criar movimentos massivos de participação ampla e direta (ou seja, não necessariamente passando pela federação de grupos de afinidade).

O coletivo autônomo hoje é tipicamente um grupo de amigos ou de pessoas “afins” que foi reunido para atuar por uma causa. Ele pode ser mais ou menos aberto (às vezes, é declaradamente fechado), mas mesmo quando aberto, só admite novos membros se eles tiverem “afinidade” com o grupo fundador. Essa característica do grupo de afinidade é o que faz com que a política nestes coletivos seja, por um lado, tão encarnada de sentido e, por outro, tão suscetível de se despolitizar.

Como na política autônoma o meio social e o meio de atuação política tendem a se sobrepor ou mesmo a se confundir, o ativista sempre tem motivações extrapolíticas para a ação. As reuniões nunca são apenas encontros para o planejamento coletivo de uma campanha ou ação política, elas são também um momento de encontro com os companheiros “afins”, um momento de congraçamento, de socialização e mesmo de divertimento.

Essa característica dos grupos autônomos inverte a tradicional relação de companheirismo que surge entre os que lutam e que é sempre invocada pelos militantes de outras gerações. É o companheirismo que surge do convívio e da experiência comum de enfrentar dificuldades e o risco de morte. Nas organizações da velha esquerda, esse companheirismo gera um sentimento fraternal de solidariedade que une os diferentes, já que os membros da organização não são originalmente amigos, mas apenas partícipes de uma ideologia política ou causa social. Nesta experiência, trabalhadores e intelectuais, pessoas cultas e ignorantes, elegantes e vulgares, de temperamento liberal e autoritário, de gênio suave e intempestivo, todas elas se encontram colaborando na mesma organização e, com o tempo, se descobrem “companheiras” – algo que todos os militantes sabem que é mais do que um jargão.

Nos grupos autônomos de cultura por afinidade o companheirismo precede a luta – ele é mesmo pré-condição da luta. Por um lado, isso traz o inconveniente de que os grupos perdem aquela diversidade e heterogeneidade característica da luta de outros tempos ou de organizações da velha escola e que gerava a união dos diferentes, que, pensando bem, estava tão de acordo com o mundo que se queria construir. Por outro lado, nas organizações de cultura por afinidade essa mesma característica é a responsável pelo entusiasmo que o novo ativismo desperta nos militantes. Ir à luta é estimulante de uma maneira que é diferente e mais intensa do que nas velhas organizações. Militar é socializar com os companheiros, é compartilhar valores de uma maneira profunda – no fundo, é dar sentido à vida. Para os militantes mais antigos que não vêem da contracultura, se divertir fazendo política soa fútil (coisa da “esquerda festiva”, como se dizia outrora). Mas quem já vivenciou essa experiência sabe que, aqui, militar é encarnar a política na vida efetiva – não é se motivar por ideologias, valores morais ou pelas “leis da história”, mas antecipar traços do socialismo na vida cotidiana.

No entanto, a mesma característica que torna essas experiências intensas, também as torna vulnerável. Como os laços inter-subjetivos são o amálgama do coletivo, qualquer rompimento destes laços de amizade e amor comprometem o trabalho político. É muito mais freqüente que se abandone um coletivo por desentendimentos pessoais do que por divergências políticas. E é igualmente mais freqüente que o resultado deste rompimento seja o abandono do ativismo do que a simples troca de organização. Se a militância no coletivo é o que dá sentido à vida, então estar impedido de militar é estar impedido de viver a vida – pelo menos “aquela” vida.

Frequentemente, essa dimensão experiencialista da política subordina a política entendida como a conquista de resultados políticos. A vida em um coletivo autônomo é um equilíbrio delicado entre a manutenção das motivações subjetivas da política experiencial e a busca de resultados políticos efetivos – da política pré-figurativa e da política orientada a fins. Por um lado, o coletivo está aprimorando a sua vida política interna e essa vida política interna tem a sua relevância própria. Por outro lado, esse coletivo só existe em função de um objetivo – que é o que desde o início serviu para reunir os militantes. Se a vida do coletivo ganha uma dimensão maior do que a luta orientada a conquistas políticas efetivas, o grupo perde a sua orientação propriamente política e se transforma num simples grupo de amigos. Por outro lado, se a busca de resultados políticos destrói o convívio do grupo, ele se torna uma organização à antiga – uma obrigação para militantes abnegados.

O que vemos é que esse equilíbrio é frequentemente rompido para o lado em que se perde o caráter político da organização (embora o oposto também aconteça). Assim, vemos coletivos formalmente abertos que simplesmente são incapazes de receber novos militantes – porque estes têm outra idade, outros gostos musicais, enfim, são de outro meio social.

Como é possível levar a sério os objetivos dos grupos autônomos que dizem que sua vida interna deve antecipar uma sociedade socialista libertária, quando são incapazes de viver na diversidade, de ter membros que não sejam, por exemplo, da mesma faixa etária? Como se pode levar a sério os discursos de transformação social quando essa incapacidade de ampliar o grupo compromete tão claramente o seu alegado objetivo – quando é mais importante a coesão interna do grupo do que a transformação da realidade?

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Efetividade da prática política

Essa incapacidade de transformar a realidade efetivamente não se deve somente à subordinação dos objetivos políticos ao cultivo da vida interna do grupo. A lógica horizontal dos grupos autônomos e a cultura política dos subordinados também tem servido de obstáculo ao desenvolvimento de uma prática política efetiva.

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4 Responses to “Um artigo inconcluso: Considerações sobre a política nos grupos autônomos”

  1. Bruno Says:

    Pablo,
    Importante reflexão, ainda que inicial.
    Creio, porém, que a distinção que você faz entre os grupos autônomos e a esquerda tradicional não procede nessa questão.
    Também em muitas organizações da esquerda tradicional – vejamos por exemplo as juventudes partidárias – o companheirismo procede a luta. As amizades são fator determinante em muitos dos “recrutamentos” de militantes por partes desses grupos.
    Me parece inclusive que na esquerda tradicional essa questão tem outros desdobramentos, na medida em que a vida social é com frequência utilizada como ferramenta para reforçar a coesão interna, diminuir o risco de rupturas e reforçar a cadeia de comando.
    Na medida em que uma ruptura com o grupo político, por exemplo, representa também uma ruptura social com seus amigos, esse processo torna-se mais doloroso. Para manter sua vida social, frequentemente o militante, conscientemente ou não, opta por sacrificar seu espirito crítico e sua coerência política.
    Esse efeito se aprofunda na medida em que a militância tem um caráter imersivo, que leva o militante a gradativamente se afastar dos círculos sociais com os quais se relacionava antes de ingressar na organização, ficando socialmente dependente dela.

  2. Bruno Cava Says:

    Essa reflexão precisa me lembra muito uma cena de “A Chinesa”.

    Quando no meio de um debate intensamente político Véronique (Anne Wiazemsky) dispara “eu não te amo mais” pra Guillaume (Jean-Pierre Léaud).

    Era tudo, claro, uma provocação à Stravoguin, do romance “Os Demônios”, que o filme adapta.

  3. Guile Says:

    Oi Pablo,

    Pra mim foi um choque quando soube que você tinha saído do CMI, pois foi através de você que me identifiquei com o projeto e foi com sua herança de sentimentos e idéias, principalmente, que tenho lutado.

    Agora só posso me admirar com a capacidade que teve de evitar a tendência geral a racionalizar a saída culpando os que ficam ou sepultando a validade do projeto.

    Como alguém que permanece no CMI, te agradeço por continuar constribuindo até mesmo na despedida.

    Você demonstra ser alguém que jamais perde a esperança na luta dos seus diferentes, até mesmo na hora da necessidade de tornar-se diferente!

    forte abraço!
    guile

    PS: concordo com o Bruno a respeito da esquerda tradicional, que eu já conheci de perto nos anos 80… sem paraísos, resta-nos aprender a lidar da melhor maneira possível com nossas imperfeições… não há vanguardas, não há iluminados…

    “Nosotros nacimos de la noche. En ella vivimos. Moriremos en ella.”

  4. Valmir Says:

    Caro Pablo, seu texto indica temas importantes sobre grupos autônomos.

    abs

    valmir

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