Dos dias de ação global às ocupações dos indignados: afinal, o que querem os manifestantes?
A recente onda de ocupações globais de espaços públicos intrigou analistas que retomaram expressões utilizadas há dez anos para falar dos protestos do movimento antiglobalização.
Esses analistas chamaram atenção para o fato de que os protestos não têm foco definido, perdendo-se numa cacofonia de demandas sobrepostas que não parecem fazer sentido unitário. Os manifestantes reclamam da degradação do meio ambiente, do desemprego, do poder do mercado financeiro e da regulação da Internet, entre várias outras pautas, de maneira que apenas parecem ter em comum o fato de estarem insatisfeitos com o estado atual das coisas, de uma maneira vaga e indefinida.
Enquanto a direita considera esse fenômeno ora intrigante, ora bizarro, a esquerda tradicional faz um julgamento mais severo, ressaltando que a falta de foco do movimento desvia recursos humanos escassos que seriam úteis em campanhas mais eficazes e mais sérias. Além disso, segundo esses críticos, a ênfase do movimento nos processos internos de construção da sua democracia e autonomia, parecem desproporcionais em relação a sua atuação no “mundo exterior”, tendendo a se tornar uma expressão fundamentalmente contracultural e isolacionista.
Para aqueles que viveram os movimentos de oposição à desregulamentação econômica no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, essas críticas soam familiares. O movimento conhecido como antiglobalização também foi acusado dos mesmos pecados, o que talvez deva sucitar uma reflexão sobre a continuidade das duas experiências para além do fato de alguns ativistas da geração Seattle estarem atuando nas diferentes ocupações ao redor do mundo.
* * *
O movimento antiglobalização nunca foi uma rede difusa de insatisfeitos com o establishment – ele foi uma construção prática da união de lutas diversas, motivada por um fato concreto, a desregulamentação econômica. Esse processo afetava simultaneamente o meio ambiente, os direitos trabalhistas, o trabalho feminino e o acesso a medicamentos. Exatemente por isso o movimento se viu como uma convergência dessas lutas, que recuperava a unidade anticapitalista que havia se fragmentado nos anos 1970 quando os movimentos de negros, mulheres e de defesa do meio ambiente se emanciparam da tutela do movimento de trabalhadores.
O movimento antiglobalização foi, assim, com todos os seus limites e contradições, um ensaio prático de convergência. Mas além de fazer essa convergência, ele inovou na forma com que foi feita (de baixo para cima), porque ela muito explicitamente invertia a estratégia leninista. E nisso, creio eu, consiste sua principal contribuição histórica.
A estratégia leninista partia do pressuposto de que o movimento deixado à própria sorte nunca sairia da sua particularidade – que os sindicatos sempre teriam a obtusa perspectiva “tradeunionista” de apenas aumentar os salários e que, portanto, o programa de transformação substantiva da sociedade teria que ser imposto ao movimento por um agente externo, o partido. Havia assim, uma polarização entre partido e movimento: enquanto o partido era portador da abordagem universalista de uma transformação social profunda, o movimento carregava uma perspectiva limitada de transformação social pontual. E era por isso que o partido deveria controlar o movimento.
Esse fosso entre uma visão particular e limitada do movimento e a visão universal do partido foi ainda mais acentuado quando o movimento operário perdeu a hegemonia sobre as diferentes pautas e os movimentos se fragmentaram em lutas específicas: do movimento estudantil, do movimento feminista, do movimento ecológico, do movimento negro. Neste cenário, a missão do partido leninista não consistia apenas em dar a devida orientação universalista à luta dos trabalhadores, mas também a todas essas lutas específicas.
Nesta perspectiva histórica mais ampla o movimento antiglobalização pode ser pensado como um ensaio de construção de baixo para cima desta universalidade – dispensando a interferência externa do partido. É por esse motivo que, em muitos lugares, o movimento antiglobalização hostilizou abertamente a participação de partidos. Embora nem sempre o projeto histórico de construção horizontal da universalidade a partir das lutas locais fosse claramente consciente, se sentia, intuitivamente, que não havia mais lugar para o controle por um agrupamento externo – que o partido, buscando trazer a universalidade desde fora e de cima para baixo, sabotava o difícil projeto democrático de construção de um novo programa global.
* * *
O movimento global de ocupações está enfrentando agora este mesmo desafio – talvez até de uma maneira ampliada. Ao contrário do movimento antiglobalização que em muitos lugares se formou a partir de movimentos sociais constituídos, o movimento de ocupações é frequentemente promovido por ativistas individuais. A construção coletiva e horizontal desta nova universalidade não está agora sendo feita diretamente por movimentos organizados, mas por ativistas que atuaram ou atuam nestes movimentos.
O desafio destas novas lutas, consiste, assim, ou em aproximar os movimentos já constituídos ou em promover a convergência, a despeito dos movimentos, ultrapassando-os. Esta última hipótese significaria um grau ainda maior de rejeição de estruturas organizativas constituídas e, portanto, um processo ainda mais lento e confuso de construção. E como todo o processo está se dando de maneira a ciosamente afirmar a democracia interna, rejeitando a forma partido, ele aparecerá aos analistas externos como ainda mais desordenado e ensimesmado. No entanto, para quem olhar de perto, sem preconceitos, a indistinta soma dos motivos sobrepostos são o esboço mesmo da sociedade que queremos.

October 28th, 2011 at 08:33
A sociedade que queremos:
http://ocupario.org/2011/10/28/atividades-futuras/
Sexta 28.0
17h – oficina de genital terapia
Domingo 30.0
18h – debate Herança de 1968Ç Quando a poesia ocupou
Segunda 01.01
19h – Oficina de pSICO-DRAMA
Terça 02.01
12h – oficina de pipas
17h – Oficina de reciclagem
***
Hummm. Acho que não…!