Capitalismo e cultura livre

A publicação do artigo “A esquerda fora do eixo” e sua repercussão são um fato a ser comemorado por duas razões: por publicizar um debate que estava acontecendo fora do espaço público e por trazer a primeiro plano algumas questões centrais da luta contemporânea. Gostaria de ressaltar o primeiro motivo, em particular, porque ele permite que o debate avance e bloqueia os efeitos nefastos da intriga e da difamação na qual a crítica se converte quando acontece apenas num circuito restrito em ambiente privado. Neste sentido, o Passa Palavra dá continuidade à missão do jornal O Combate com o qual mantém certa filiação histórica. O que não me parece muito de acordo com essa missão é a recusa em participar de um debate sugerido pelo Fora do Eixo com uma alegação que simplesmente desqualifica o adversário, colocando-o apressadamente e sem lhe dar voz, no campo do empresariado. Tenho sérias dúvidas se o coletivo do Passa Palavra tem elementos para fazer essa qualificação de maneira sustentada.

De todo modo, não gostaria de discutir o coletivo Fora do Eixo, não porque o assunto é sem interesse – muito pelo contrário – mas por que simplesmente tenho poucos elementos para contribuir com o debate e acho que a própria disposição do coletivo em responder é o ponto de partida mais adequado.

O que gostaria de fazer é responder a algumas afirmações e concepções do artigo no que diz respeito à constituição do campo da cultura livre e da relação entre a contracultura e a luta social. Acho que o artigo traz os elementos certos para o debate, mas nem sempre de maneira apropriada. Chamo a atenção para alguns pontos centrais:

Em primeiro lugar, o artigo “A esquerda fora do eixo” sugere que o processo de constituição da cultura livre foi movido pelo empresariado: “A ideologia da cultura livre baseia-se na ideia de que a flexibilização da propriedade intelectual com a concorrência proporcionada pelo livre mercado pode estimular a criação e, nesse processo, democratizar a informação e assim as nações caminharem ao progresso. De fato, quanto maior a flexibilização da propriedade intelectual, maior a produtividade dos trabalhadores e, por isso, maior a produção de riqueza a ser apropriada e transformada em mercadoria. Em síntese, a cultura livre é a própria regra do jogo do capitalismo, a apropriação de algo que a classe capitalista não produz.” O que essa leitura deixa de levar em conta é precisamente a agência do processo que descreve. A plataforma da cultura livre não foi impulsionada pelas empresas, muito pelo contrário – ela foi e até hoje é fortemente resistida pelo grande capital que opera as chamadas indústrias culturais (do livro, da música e do audiovisual). Quem esteve impulsionando esse processo sempre, desde o começo, foram ativistas, alguns dos quais vindos do campo liberal (no sentido americano do termo) e outros do campo da esquerda, no sentido europeu (no seu espectro mais amplo). Os ativistas liberais queriam persuadir o empresariado de que havia possibilidades de negócio não exploradas e buscavam conciliar uma “modernização” da indústria cultural com a democratização do acesso à informação, já que haveria queda na barreira de preços dos produtos culturais. Os ativistas da esquerda enfatizavam o processo de desmercantilização da cultura e a constituição de formas coletivas de produção e distribuição da cultura que retomavam, em nova chave, experiências pré-capitalistas dos bens comuns (commons). O artigo aponta corretamente que houve uma “aliança política tática formada por um programa de oposição às transnacionais da cultura e os oligopólios culturais regionais”, mas está completamente equivocado ao afirmar que se ocultou “a reflexão crítica sobre o que há de surgir em seu lugar.” A discussão sobre as implicações políticas desta aliança anti-velha-indústria e de como lutar para que o processo de transformação em curso se oriente mais para a desmercantilização da cultura e menos para a modernização da indústria por meio de novos modelos de negócio foi o cerne dos debates de toda a esquerda que esteve envolvida no campo da cultura livre. O artigo também falha ao não ressaltar a agência do processo que foi movido por ativistas, contra uma indústria resistente e recalcitrante. Assim, não pode discutir as implicações teóricas e políticas que são a essência da interpretação autonomista da história de que as transformações estruturais do capitalismo são exógenas, frequentemente vindas da luta social.

O segundo ponto que gostaria de comentar é a leitura classista da luta pela cultura livre. Eu compartilho com o Passa Palavra o diagnóstico geral de que a estrutura de classes da sociedade capitalista fordista foi (e, em certa medida, ainda é) tripartite e não binária. Ela tinha três classes: uma classe de proprietários cujos rendimentos advinham da rentabilidade da propriedade e que se reproduzia por meio da herança, uma classe de gestores profissionais que comandavam o processo produtivo e se reproduzia por meio do sistema de ensino superior e uma classe de trabalhadores despossuídos de propriedade e competência formal profissional. A distribuição das classes era muito variável de acordo com o papel que cada nação ocupava no sistema capitalista mundial, mas, para simplificar o argumento, tinha a estrutura típica 1:10:90. O elemento chave da organização desta estrutura, além da propriedade privada e do trabalho assalariado, era que a organização fordista separava a concepção da execução do trabalho e limitava o acesso às funções de concepção por meio do monopólio profissional. No entanto, há evidências muito sólidas e de muitas décadas de que essa estrutura está mudando: nas empresas, consolidam-se práticas de gestão pós-fordistas onde os trabalhadores recebem muitas (mas não todas) atribuições gerenciais e há uma ampliação do acesso ao ensino superior que, em alguns países, caminha para 40% da força de trabalho. Embora inconteste, essas transformações não têm linhas gerais completamente claras, na minha opinião. Algumas questões: qual o impacto das novas ocupações de nível superior para o sistema produtivo?; caminhamos para novos tipos de hierarquia na estrutura produtiva que não é mais determinada pelo acesso escasso às ocupações profissionais? quais?; essa delegação de tarefas gerenciais para os trabalhadores modificou efetivamente a natureza do trabalho produtivo cuja essência agora seria simbólica, como querem os autonomistas franco-italianos? (lembrando que, mesmo nos Estados Unidos, onde o processo está mais avançado, 60% da força de trabalho ainda manipula produtos e não símbolos e que esse crescimento americano pode ter tido como contrapartida a ampliação do trabalho industrial fordista nos países semi-periféricos); por que certos tipos de trabalho como o de telemarketing, no coração do setor de tecnologia de informação e comunicação, ainda se organizam de maneira fordista? Eu não conheço respostas satisfatórias para essas e outras questões, mas acho que devemos olhar para este mundo que se transforma e não para o mundo fordista que aos poucos desaparece.

Por fim, gostaria de comentar as novas formas de luta que acompanham esse processo de transformação da estrutura de classes. Essas transformações da natureza do trabalho e da estrutura de classes começaram a ser sentidas claramente nos anos 1960 e, na minha opinião, estão claramente ligadas à emergência da contracultura, às novas demandas sociais características destes segmentos e a uma culturalização da luta social que vemos, para pegar casos extremos, no maio francês, nos yippies americanos e nos indiani metropolitani da Itália (no Brasil, por especificidades da conjuntura nacional, não veremos essa intersecção no tropicalismo). A drástica ampliação do ensino superior e a massificação das tecnologias de informação comunicação, “culturalizaram” as “camadas médias urbanas” o que repercutiu na forma de expressão das suas lutas, inclusive quando tiveram orientação anticapitalista. Nas lutas desses setores urbanos médios, assim, vagamente definidos, a expressão da luta tem uma dimensão cultural ineliminável e as demandas são crescentemente “pós-materiais” para usar um jargão sociológico. Como as lutas destes setores médios – tanto dos emergentes, como os do já consolidados – se articulam com a dos trabalhadores, inclusive com aqueles que ainda vivem no regime fordista, num cenário de rápida transformação é a questão em aberto a ser investigada. Não sei se a marcha da liberdade que o artigo discute dará frutos, mas o crescimento de mobilizações deste tipo – altamente culturalizadas e com os segmentos médios urbanos – são obviamente uma tendência marcante. Na verdade, no cenário atual, são a novidade mais distintiva para a qual os antagonistas do sistema capitalista deveriam voltar seus olhos. Por isso, quando texto ironiza a forma e o conteúdo deste tipo de luta (“os elementos da composição dessa nova elite passam pelo consumo e sustentação de novos habitus, como se deslocar para o trabalho de bicicleta ou a pé, reciclar seu lixo, cuidar de pequenas hortas em casa, consumo de orgânicos, baixar músicas e minutar os momentos do dia numa mídia social”), ressaltando a forma das lutas de meados do século passado, ele não ajuda a compreender o presente, nem a discernir as tendências do futuro. Nos anos 1860, Karl Marx viva num mundo predominantemente agrário, cuja maior parte da classe trabalhadora era camponesa. Ele não teorizou sobre a luta no campo, mas sobre o incipiente mundo industrial. Acho que ainda é a atitude adequada a seguir.

Algumas referências para o debate a que se faz menção neste artigo:
A esquerda fora do eixo
A Esquerda nos Eixos e o novo ativismo
Domingo na Marcha (1ª parte)
Nem eixo nem seixo
Fora do Eixo e a esquerda que a direita gosta
A reinvenção da política
Sair dos eixos à esquerda (1)
A Maconha, as marchas e a crise do capitalismo
Lutas Sociais e Fetichismo: notas sobre o debate iniciado pelo Passa Palavra (I)

14 Responses to “Capitalismo e cultura livre”

  1. Entre os problemas mais gritantes, Ivana Bentes destaca… « produtor.info Says:

    […] Pablo Ortellado, comemora a polêmica em seu blog com o texto “Capitalismo e cultura livre” [http://www.gpopai.org/ortellado/2011/06/capitalismo-e-cultura-livre], onde aponta algumas falhas na análise do Passa Palavra, mas sem deixar de compartilhar a leitura […]

  2. Medialab » Nem eixo nem seixo Says:

    […] [3] Pablo Ortellado publicou um ótimo texto onde é feita esta análise de maneira detalhada: Capitalismo e Cultura Livre: http://www.gpopai.org/ortellado/2011/06/capitalismo-e-cultura-livre/ […]

  3. Nem eixo nem seixo | Trezentos Says:

    […] [3] Pablo Ortellado publicou um ótimo texto onde é feita esta análise de maneira detalhada: Capitalismo e Cultura Livre: http://www.gpopai.org/ortellado/2011/06/capitalismo-e-cultura-livre/ […]

  4. Fora do Eixo e a esquerda que a direita gosta | Blog do Rovai Says:

    […] dois artigos discutindo o texto em questão. O primeiro da professora Ivana Bentes (UFRJ) e o outro do professor Pablo Ortellado (USP). Postado em Geral | Tags: ativismo, cultura digital, […]

  5. Debate na Esquerda sobre a Esquerda fora do Eixo: uma cronologia | Maria Frô Says:

    […] o professor da USP, o Dr. Pablo Ortellado, comemora a polêmica em seu blog com o texto “Capitalismo e cultura livre”, onde aponta algumas falhas na análise do Passa Palavra, mas sem deixar de compartilhar a […]

  6. O samba do criolo doido… at BOLOGS Says:

    […] Em todo caso vale conferir a polêmica sobre as Marchas de Maio/Junho nas análises de Pablo Ortellado, Ivana Bentes e um texto coletivo do Passa Palavra O foco da discussão é a produtora Fora do Eixo […]

  7. Pergunte ao Brasil at BOLOGS Says:

    […] argumento de poder para socialistas. “Que esquerda é essa?”, perguntam Ivana Bentes e Pablo Ortellado, quando alguns marxistas acusam o Coletivo Fora do Eixo de interesses perversos nas manifestações […]

  8. Repercussões do debate “A esquerda Fora do Eixo” - Okupe a Cidade! Says:

    […] Pablo Ortellado Retirado de http://www.gpopai.org/ortellado/2011/06/capitalismo-e-cultura-livre/ […]

  9. Medialab » Cronologia debate: novo ativismo, esquerda e economia da cultura Says:

    […] 23/6/2011, por Pablo Ortellado em seu próprio blog – “Capitalismo e Cultura Livre”(http://www.gpopai.org/ortellado/2011/06/capitalismo-e-cultura-livre). […]

  10. Pós-modismo pós-festivo (2) | Quadrado dos Loucos - Prosa, crítica, crueldade e desejo. Says:

    […] Pablo Ortellado, que incluiu o meu primeiro artigo na cronologia ao final de outro texto, dele, em Capitalismo e cultura livre; ao Pìmentalab, que também organizou um catálogo abrangente sobre as ramificações do debate […]

  11. Mais lenha na fogueira do debate! - Okupe a Cidade! Says:

    […] [3] Pablo Ortellado publicou um ótimo texto onde é feita esta análise de maneira detalhada: Capitalismo e Cultura Livre:http://www.gpopai.org/ortellado/2011/06/capitalismo-e-cultura-livre/ […]

  12. A esquerda sem fantasias: justiça e solidariedade | Trezentos Says:

    […] que uma síntese, busca ser sintético: curto, claro e conciso. Vimos nas últimas semanas [1,2,3,4,5,6,7,…] uma intensa verborragia acerca da esquerda no presente. Questionou-se, fez-se pensar e […]

  13. A criminalização da cultura das ruas Says:

    […] – Capitalismo e cultura livre. Por Pablo Ortellado […]

  14. Pimentalab » Nem eixo nem seixo Says:

    […] [3] Pablo Ortellado publicou um ótimo texto onde é feita esta análise de maneira detalhada: Capitalismo e Cultura Livre: http://www.gpopai.org/ortellado/2011/06/capitalismo-e-cultura-livre/ […]

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