CMI: entre a política e o movimento (2004)

[Neste texto de 2004, discuto a relação entre o Centro de Mídia Independente com os movimentos verticais]

O projeto do CMI nasceu de um sonho, o mesmo sonho que alimentou o movimento antiglobalização: fazer a convergência de todos os movimentos sociais para se opor ao neoliberalismo e criar uma alternativa com justiça social e democracia direta. O CMI deveria ser o porta-voz desse novo movimento de movimentos rumo a uma nova sociedade.

Quando toda essa história começou, digamos, com o J18 em 1999 (o primeiro dia de ação global efetivo, em protesto contra uma reunião do G8), havia uma certa ingenuidade dos protagonistas desse emergente movimento global que consistia em dois pontos: que os movimentos sociais eram de base (isto é, que eram ou lutavam para ser horizontais) e que o problema da convergência dos movimentos sociais consistia na diversidade das lutas (feminismo, ecologia, sindicalismo etc.) e não na diversidade das abordagens políticas (anarquistas, trotskistas, comunistas etc.).

Talvez chamar essa construção de ingenuidade não seja totalmente adequado porque talvez se tratasse, na mesma medida, de uma ambiguidade deliberada, que colocava como existente o que era apenas desejado, que moldava o real para que coincidisse (falsamente, é claro) com o projeto ideológico. Mas era claro que ingenuidade ou ideologia, a verdade se evidenciaria cedo ou tarde e teríamos que lidar com os resultados do processo fossem eles positivos ou negativos.

O CMI se apresentava como um projeto que “queria dar voz aos que não tem voz” o que significava mais do que “vincular-se aos movimentos sociais” – significava que os movimentos sociais falariam por si mesmos, significava que o CMI *era* os movimentos sociais. Claro que tudo isso pressupunha muita coisa: que os movimentos sociais que estavam mais engajados no chamado “movimento antiglobalização” (os movimentos de jovens autonomistas e alguns movimentos sociais ligados à AGP) eram representativos do universo total dos movimentos sociais e que o processo de apropriação do CMI que eles haviam liderado podia ser estendido aos movimentos sociais como um todo em escala global.

Esses pressupostos eram falsos e a verdade começou a se evidenciar quando a onda de protestos contra os encontros de cúpula arrefeceu e a atividade “nacional” dos CMIs começou a ganhar centralidade. Neste momento, os CMIs tiveram que olhar para a realidade de cada lugar e tentar compatibilizar o discurso social do CMI como veículo dos movimentos, com a convicção política numa sociedade com justiça social e democracia direta. Em muito pouco tempo, ficou claro que os dois princípios eram incompatíveis.

A idéia de que os movimentos sociais eram de base, era uma idéia normativa, uma idéia de como deveriam ser e não de como efetivamente eram. É claro que havia um setor de base na América Latina formado por movimentos como os zapatistas no México, o MOCASE e alguns grupos piqueteiros na Argentina, além dos movimentos de jovens nos centros urbanos. Mas esses movimentos não eram nada representativos do conjunto dos movimentos sociais do continente, todos vindo de experiências direta ou indiretamente estalinistas e muito marcadas pelo estatismo e pelo centralismo democrático. De forma que, num determinado momento, ficou claro que se o CMI fosse um veículo “orgânico” aos movimentos sociais ele teria que abrir mão da sua orientação política e submeter-se à orientação dominante dos movimentos ou então, inversamente, se apostasse na sua orientação política, teria que conformar-se com seu isolamento. Esse dilema, como deve ser claro para qualquer leitor, nunca foi abertamente enfrentado e a ambiguidade constitutiva do CMI desenvolveu-se aí também.

A postura típica do CMI consiste em flertar com os movimentos sociais no que eles têm de radical e anti-capitalista e ignorar toda a sua dimensão “reformista” e “autoritária”. Freqüentemente, esse jogo de sedução e desprezo coincide com as duas dimensões que Lenin já havia distinguido em 1905: a dimensão social e a dimensão política. No clássico “O que fazer?”, Lenin havia argumentado que o movimento sindical deixado por si só tinha uma consciência parcial e uma plataforma política reformista – por isso, completava, era preciso que o partido, que tinha o conhecimento científico do processo histórico, se infiltrasse no movimento sindical para dar-lhe um rumo revolucionário. Durante todo o século XX “O que fazer?” funcionou como um verdadeiro manual de como os partidos comunistas deviam se infiltrar e manipular os movimentos sociais para conduzi-los na direção determinada pelo centralismo democrático dos comitês centrais.

A história do século XX é, num sentido, a história da cooptação dos movimentos sociais pelos partidos políticos e pelo estado. Os movimentos “selvagens” que resistiram e lutaram por sua autonomia como os conselhos operários, maio de 68 ou a revolta argentina de 2001, em grande medida fracassaram e deixaram apenas o legado político de uma luta a ser continuada e aprofundada. Como herdeiros dessa corrente minoritária da esquerda temos a difícil tarefa de pensar em como vamos nos relacionar com os movimentos majoritários vindos de outras tradições, especialmente quando eles estão em oposição aos nossos princípios mais caros.

A presente situação na América Latina é bastante desafiadora neste sentido. Com a ascensão de partidos políticos de esquerda ao poder na Venezuela, Equador, Brasil e Argentina, houve um movimento em escala continental de alinhamento dos movimentos sociais com os governos nacionais. Colocar-se como porta-voz dos movimentos sociais neste contexto significa nada mais, nada menos do que apoiar os governos nacionais – não apenas legitimar a estrutura do estado, como apoiar as políticas nada esquerdistas dos governos de Lula, Kirchner e Chávez. O preço por não fazê-lo, nós já estamos pagando: é o isolamento.

Essa situação extrema, talvez venha para bem. Ela está nos forçando a refletir sobre o projeto original do CMI e está nos obrigando a enfrentar difíceis (mas necessárias) escolhas políticas. Talvez tenhamos que, como Lenin, distinguir as dimensões sociais e políticas dos movimentos, não para criar alguma estratégia de manipulação, mas para reconhecer a dinâmica organizacional dos movimentos. A distinção leninista é ainda uma realidade dentro dos movimentos. Suas lideranças sabem que os sem-terra apenas querem terra, que os sem-teto apenas querem teto e que os trabalhadores apenas querem melhores salários. Eles tentam ainda manipulá-los para que apóiem ou critiquem o governo, que sejam contra ou a favor das reformas, das privatizações e dessa ou daquela versão da revolução. Se optamos, por nossos valores políticos, a não apoiar esses programas políticos ou menos ainda o processo de manipulação dos partidos, isso não significa que não devemos apoiar a luta *social* por terra, casa e salários. Mas, isso, evidentemente é insuficiente. Porque ao apoiar a luta social do movimento, apoiamos indiretamente a luta *política* da liderança – luta política que pode estar em total oposição aos nossos valores.

Numa situação como essa, só uma saída, que não é cômoda, nem muito bem definida: além de construirmos um veículo de comunicação com os valores que temos é preciso construir um movimento com os valores que temos – um movimento que vá além dos pequenos espaços que temos conseguido. A tarefa é enorme – e inadiável.

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