Desterro paulista

O historiador paulista Sérgio Buarque de Holanda começou da seguinte maneira o seu mais famoso livro:

“A tentativa de implantação da cultura europeia em extenso território, dotado de condições naturais, se não adversas, largamente estranhas à sua tradição milenar, é, nas origens da sociedade brasileira, o fato dominante e mais rico em consequências. Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas ideias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra.”

O tema de Sérgio Buarque é o sentimento de “idéias fora do lugar”, de uma cultura em grande medida européia, pelo menos nos seus padrões, que está implantada num ambiente que não se encaixa – e não consegue se encaixar – na norma. Há uma consolidada tradição de reflexão sobre este problema nas ciências sociais paulistas. Curiosamente, essa reiterada reflexão sobre o problema do desencontro da matriz cultural européia com a realidade social de uma nação periférica não encontra contrapartida no problema do isolamento cultural paulista. E essa ausência, acredito, é ela mesma uma sinalização do nosso problema.

O problema pode ser descrito da seguinte maneira: por que os paulistas não desenvolveram um sentimento de identidade que permitisse integrar sua particularidade nesta construção cultural mais ampla que é o Brasil? E por que os paulistas não tem plena consciência que a sua cultura é tão pouco partilhada pelo resto do país?

Quem olhar com distanciamento para os paulistas, logo descobre que São Paulo é culturalmente excepcional. Essa exceção, obviamente, não advém do fato de ter uma cultura própria, mais ou menos discernível, mas de não se perceber ou se reconhecer como tal. Em todas as esferas, os paulistas cultivam um gosto e identidade culturais particulares, inclusive por aquilo que é produzido fora de São Paulo. É especificamente paulista o reconhecimento de Mario de Andrade como protótipo máximo do intelectual público. É também particularmente paulista, o papel histórico e literário concedido ao concretismo ou à inovação estética na música popular atribuída à vanguarda paulista dos anos 1980. Apesar disso, São Paulo não se vê como uma cultura regional. Ao contrário do Rio Grande do Sul, que tem uma política clara de valorização da sua cultura com os Centros de Tradições Gaúchas e o cultivo de poetas locais como Mário Quintana, ou Minas Gerais, que cultiva em vários campos uma identidade regional que vai da gastronomia à música popular e à literatura, São Paulo não se preocupa com o que é e nem como colabora com o que o Brasil é. Embora tenha traços culturais marcantes e uma identidade que se sente, por contraste, no convívio com os outros brasileiros, São Paulo não reconhece a sua particularidade como regionalismo. É como se São Paulo esparasse que a particularidade paulista fosse a norma nacional – ainda que ela flagrantemente não seja partilhada pelos outros brasileiros.

Um interessante contraponto para entender a excepcionalidade paulista é o Rio de Janeiro. O Rio herdou e manteve uma hegemonia cultural sobre o Brasil advinda da sua antiga condição de capital federal. Mas soube fazê-lo preservando e mesmo ampliando a sua identidade regional. Quanto mais o Rio de Janeiro é carioca, mais contribui com a identidade cultural brasileira. Assim, do samba carioca ao star system televisivo, o Rio de Janeiro se sabe carioca e o Brasil compartilha com o Rio boa parte dos seus traços de identidade. Isso, em parte, se deve à centralidade histórica do Rio e ao fato da infra-estrutura econômica da cultura estar estruturada em arranjos produtivos locais ou, como dizem os anglo-saxões, em clusters. E os maiores clusters dos dois principais construtores da identidade nacional estão no Rio: a indústria musical e a televisão. Tendo herdado a centralidade cultural de capital do país e produzindo a maior parte da música e da televisão brasileiras, os cariocas conseguem nacionalizar a sua cultura local. Mas isso é apenas parte da explicação. Ela não explica, por exemplo, porque uma cultura como a baiana desempenha um papel tão maior que o de São Paulo na identidade nacional, a despeito do seu menor papel na economia da cultura.

Eu acredito que o excepcionalismo cultural paulista se explica sobretudo por razões históricas: o ressentimento não resolvido pela derrota em 1932. A revolução de 1930 que depôs os paulistas do poder e a derrota posterior na revolta de 1932 criou um enorme ressentimento de São Paulo contra o resto do Brasil. É por isso que São Paulo tem a tradição de desenvolver instituições próprias, em paralelo às instituições federais. É o caso, entre muitos outros, do sistema de ensino superior paulista. Como todo uspiano aprendeu, a Universidade de São Paulo foi criada com o propósito de conquistar a hegemonia cultural e política do país depois da derrota de 1932. Com a fundação da universidade, os paulistas buscaram reproduzir a estratégia de reconquista de hegemonia por meio da cultura e da ciência dos alemães que fundaram as modernas universidades de pesquisa após serem derrotados pelos franceses nas guerras napoleônicas. Ao fundar a USP, os paulistas queriam formar os políticos, os técnicos e cientistas e os produtores de cultura para reconquistar o país que haviam perdido com o fim da primeira república. A história do desenvolvimento desta instituição (USP) e dos diferentes projetos políticos que ali se entrecruzaram é muito pouco linear e ainda está para ser escrita. De qualquer maneira, à direita e à esquerda, prevalece na USP o sentimento de missão nacional – de que é preciso conduzir o Brasil segundo um projeto concebido pela elite pensante de São Paulo.

De certa maneira e em grau seguramente menor que o planejado, os últimos 16 anos marcam a vitória do projeto paulista de 1934, ano em que a USP foi fundada. Foram os quadros técnicos e políticos de São Paulo que novamente passaram a governar o Brasil, reconquistando a hegemonia política paulista. Depois do período errático pós-abertura, as forças políticas gestadas por São Paulo durante a ditadura estruturaram os dois principais partidos políticos que subjugaram à esquerda e à direita as antigas elites nacionais. E foi a Universidade de São Paulo que formou boa parte dos quadros técnicos e políticos que conduziram e conduzem este processo, visto por muitos paulistas como uma modernização sob a tutela de São Paulo. Curiosamente, a superioridade econômica e agora política de São Paulo não produziu como contrapartida uma hegemonia cultural. Pelo contrário, os paulistas mal percebem que o Brasil não se vê da mesma maneira que São Paulo e por isso não se colocam o problema de entender por que não contribuem significativamente para a cultura brasileira.

A questão, obviamente, não consiste em descobrir como realizar o projeto de hegemonia cultural paulista que é um projeto imperialista obtuso. O ciclo de realização da vingança histórica de São Paulo, para o bem ou para o mal, se completou. Os paulistas não precisam dominar o Brasil, mas participar dele, a partir da sua experiência local. São Paulo precisa se integrar ao Brasil e não comandá-lo. E, para isso, São Paulo precisa olhar para si e construir sua identidade a partir da sua rica história cultural.

Toda região brasileira tem a sua identidade musical, um gênero regional que a define fundamentalmente: o samba carioca, o maracatu pernambucano, a música nativista gaúcha. Qual é a de São Paulo? O samba de Geraldo Filme e Adoniran Barbosa? A música caipira de Alvarenga e Ranchinho? A vanguarda paulista de Itamar Assunção e do grupo Rumo? Todos esses gêneros compõem a história musical de São Paulo e são, cada um a seu modo, caracteristicamente paulistas. Assim como são caracteristicamente paulistas o primeiro modernismo, o concretismo e até expressões estrangeiras globais que só em São Paulo encontraram a devida acolhida, como o punk e o hip hop. Apesar disso, nenhuma dessas expressões culturais desempenha o papel estruturante da identidade regional que, por exemplo, o samba desempenha no Rio. Embora São Paulo apresente traços culturais particulares, eles nunca foram articulados numa identidade paulista que possa ser comparada a das outras regiões do Brasil. Talvez isso se deva ao caráter cosmopolita de São Paulo, ao seu lugar central nos fluxos simbólicos, econômicos e migratórios, que conferem tal dinamismo à cultura que ela não se consolida em uma identidade estanque. Mas o fato de São Paulo, a despeito do seu poder econômico, não conseguir nacionalizar esses traços culturais próprios, nem despertar uma dinâmica de deferência por parte do resto país, parece indicar apenas uma certa desconexão com o Brasil. Essa desconexão pode tanto ser um alheiamento por parte de São Paulo, como um ressentimento brasileiro por essa postura apartada e esnobe. Acredito que isso aconteceu porque a construção da identidade paulista implicava aceitar a sua dimensão regional, o que era incompatível com o projeto de hegemonia nacional.

Nos últimos 80 anos os paulistas olharam com excessiva arrogância para o Brasil, se esquecendo que a vingança histórica por 1930-1932 nasceu de um ressentimento das  oligarquias mais conservadoras. Um pouco sem perceber, incorporaram essa missão de conduzir o Brasil rumo à modernização – que poderia ser liberal ou socialista – sem perceber que tal missão é incompatível com um projeto democrático – menos ainda com um projeto radicalmente democrático. São Paulo precisa olhar para si e se reconhecer na sua particularidade. Só a partir dela é que poderá democraticamente contribuir para a cultura e para a sociedade brasileiras da qual é ainda bastante distante.

One Response to “Desterro paulista”

  1. Daniel Says:

    Ainda bem que nao são paulo nao esta presa nessas narrativas regionais que calcificam a cultura local. Aqui tem de tudo, do mundo inteiro. Em gastronomia, em musica, artes plasticas, dança, em interação humana.

    Por que voce acha nessario a construção dessa identidade coletiva em detrimento da criação de milhoes de identidades individuais?

    Acho nefasta essa estigmatização de que o Rio é tal coisa, pernambuco é assim e o RS é isso. As consequencias sao empresas e governo intestirem para que os comportamentos/cultura mais estereotipados recebam mais investimento e conquistem/dominem as novas gerações, que podem ter desejos e interesses diferentes da massificação cultural que esteja em curso. Toda simplificação regional é ignorante e deve ser denunciada. A utilização, por uma minoria vocal, de um discurso unificador de um vasto aglomerado de individuos deveria espantar, nao cativar.

    Adoniran Barbosa é São Paulo? Só pode ser brasileiro se for Samba, Axé, Pagode ou Setenaijo? Acho curioso quando se fala de cultura brasileira como é possivel ser tao preconceituoso e ignorante das culturas locais e ainda ser ouvido. Como o meu passado cultural, completamente formado em SP, nunca ganha destaque nas conversas sobre o que é cultura brasileira. Quando se sente ostracizado da Bahianidade e da Riozisse do brasil faz o que? Nao é a toa que os paulistas tem a atitude que tem, ja que o discurso sobre o que é brasileiro nunca nos inclui.

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